Quando Corumbá foi Paraguai (2a. PARTE)

A rotina da nova vila paraguaia foi quebrada quando chegou um vapor, em 29 de julho de 1866, com ordens de Solano Lopez para recolher à Assunção toda a população masculina dos territórios ocupados. O fato encheu de temor os homens de Corumbá pela perspectiva de deixar expostas suas famílias, onde os direitos individuais dependiam da vontade dos vencedores. Algumas famílias, porém, conseguiram descer o rio até o Forte de Coimbra, numa chata rebocada pelo vapor paraguaio. O restante dos prisioneiros, em número expressivo de várias centenas, foi espremido nas câmaras do vapor. Em Albuquerque foram recolhidos todos os índios ali residentes. E todos ficaram no Paraguai até o final da guerra.

Depois disso, pouco se soube sobre a situação dos que permaneceram em Corumbá. Enquanto isso, em Cuiabá, o governo provincial iniciava uma mobilização de homens com o objetivo de retomar a vila de Corumbá. Em 15 de maio de 1867, no porto cuiabano, embarcou uma vanguarda das forças brasileiras composta de efetivos do exército, Voluntários da Pátria e Guardas Nacionais sob o comando do coronel Antônio Maria Coelho. Eram 400 homens divididos em seis companhias, uma delas comandada pelo capitão de infantaria Luiz da Cunha e Cruz.

Esta vanguarda deveria esperar o restante da tropa para realizar um ataque frontal aos paraguaios. Porém, desembarcou na noite do dia 11 de junho abaixo de Ladário, próximo do Rabicho. Cunha e Cruz e seus homens não esperaram o restante da tropa e, resolvendo atacar imediatamente, seguiram para Corumbá através de um atalho até a estrada do Barão (precariamente construída pelo Barão de Vila Maria ligando sua propriedade na Piraputanga à vila corumbaense). O primeiro combate, no dia 13 de junho, deu-se no encontro com alguns paraguaios próximos da cadeia (agora, local em frente à Escola Estadual Julia Gonçalves Passarinho). As forças brasileiras desceram em ritmo acelerado pela rua Santa Teresa (hoje, Frei Mariano), acompanhadas por duas mulheres cuiabanas que também participaram dos combates: Francisca de Sampaio Botelho e Maria Brasilina da Silva Barreto, para impedir o embarque e o desembarque de paraguaios dos barcos estacionados no porto. Desceram também pela rua General Carvalho (hoje, rua Antônio Maria) para tomar o Largo do Carmo (Praça da República). Segundo Rodolpho Olegário de Figueiredo, que participou desta retomada, a praça estava envolta por uma fortificada trincheira.

Ainda segundo Olegário de Figueiredo, os paraguaios desalojados da trincheira pelo fogo dos soldados brasileiros foram se abrigar nas casas da praça de onde atiravam contra a força que já havia tomado a trincheira e controlava a praça. Sobre as mortes escreveu: “foi nesse terrível combate que perdemos nove homens e 27 feridos. Entre os que pereceram conta-se o cadete sargento ajudante Manoel de Pinho e o capitão Cunha e Cruz, que, deixando a companhia de seu comando, avançou só contra a guarda do Quartel, onde se achava o tenente Roas”. Este, saiu ao seu encontro e, com dois golpes de espada sobre a sua cabeça e um tiro de revolver, deixou-o morto. Continuando a descrever esse momento extraordinário da guerra, Olegário relatou que depois o Tenente Roa dirigiu-se sozinho contra a coluna brasileira, ainda de espada em punho e revolver, mas sem disparar sua arma. Porém, acabou morto varado por golpes de espada e sabre. Assim, ainda segundo Olegário, vingou-se a morte do capitão Cunha e Cruz.

Do porto, dois vapores paraguaios (entre eles o Anhanduhy) disparavam tiros sobre a praça e eram respondidos pela artilharia tomada dos paraguaios pelos brasileiros. Esses vapores, não podendo fazer frente ao fogo dos brasileiros, fugiram rio acima para depois retornarem à Assunção.

Do lado paraguaio morreram, além do citado Roa, o coronel Cabral que era o comandante, um padre (acusado de atos devassos na época do domínio paraguaio na vila) e mais ou menos 160 soldados. Alguns ainda conseguiram fugir para a Bolívia juntamente com um secretário de nome Rivarola. Ainda como saldo da retomada, as forças brasileiras fizeram 27 prisioneiros e libertaram as mulheres brasileiras.

No entanto, todos os habitantes da vila enfrentavam há meses um inimigo poderoso e implacável: uma epidemia de varíola que consumia todos os seus moradores. No dia seguinte à retomada, os mortos brasileiros foram enterrados e os paraguaios jogados ao rio. Mandou-se um mensageiro, em um pequeno barco, para levar a notícia à Cuiabá. Já contaminado pela varíola, esse mensageiro deixou um rastro da doença por onde passou, morrendo logo que chegou à capital.

No dia 23 de junho chegou a Corumbá o presidente da Província Couto de Magalhães, encontrando mais da metade dos membros da força brasileira contaminada pela varíola. Impossibilitado de ali ficar pela extensão da epidemia, Couto de Magalhães ordenou o retorno de todos os sobreviventes, que somavam mais de mil pessoas incluindo os doentes, à Cuiabá. Nesse retorno, a mortandade provocada pela varíola foi tão grande que apenas 1/3 dos que saíram de Corumbá chegaram vivos à Cuiabá.

Pouca gente sabe, mas após a retirada das forças brasileiras, os paraguaios retornaram a Corumbá onde permaneceram por certo tempo. Desse modo, Corumbá prolongou sua condição de território do Paraguai até que esses soldados a abandonassem. E assim encerrou-se sem glórias a época em que a nossa fronteira foi Paraguai.

Valmir Batista Corrêa

É professor titular aposentado de História do Brasil da UFMS, com mestrado e doutorado pela USP. Pesquisador de História Regional, tem uma vasta produção historiográfica. É sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de MT, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de MS e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras.

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