ONU: Ineficiente, mas Indispensável? (A resposta na visão de quem trabalhou 30 anos lá dentro)
05/04/2026 às 08:59 Opinião
Você acha que a ONU não serve para nada e deveria ser extinta? Muita gente pensa assim. Mas será que as pessoas entendem a ONU e tudo que ela faz?
A ONU atravessa um momento delicado. Lembrem que a humanidade tem feito guerras por mais de 13.000 anos, mas apenas em 1920 foi criada a primeira organização global destinada a manter a paz mundial: a Liga das Nações. Teve vida curta: só 26 anos, sendo dissolvida por não ter tido mecanismos para impedir a Segunda Guerra Mundial.
A Organização das Nações Unidas (ONU) foi então fundada em 1945 com o objetivo de manter a paz e promover cooperação na resolução de problemas globais. A ONU veio com uma novidade: um Conselho de Segurança formado por cinco membros permanentes com poder de veto: China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia. Essa arquitetura refletiu a geopolítica global após a Segunda Guerra. Apesar das críticas, até hoje não se encontrou outra fórmula para substituir ou ampliar o Conselho de Segurança. Até hoje, estes 5 países disputam esferas de influência globalmente e estão entre os que mais exportam armas.
A ONU acaba de completar 80 anos. Trabalhei na ONU em Nova York por 30 anos, tendo visto praticamente uma nova reforma a cada ano, em vários níveis.
Não quero fazer críticas injustas ou defender a ONU escondendo seus problemas. Primeiro precisamos entender que o planeta como um todo tem desafios estruturais que aumentam a cada ano. É impossível resolver esses desafios através de um desenho institucional que agrade sempre a 193 países soberanos. A ONU é amplamente criticada por razões políticas, operacionais e estruturais. As principais críticas incluem:
1. Nacionalismo X Globalismo: hoje a ONU tem 193 países membros. Algumas nações, como os EUA, ressentem políticas globalistas que conflitam com seus interesses nacionais. Os EUA são o país anfitrião da ONU e contribuem aproximadamente 25% de seu orçamento. Ao mesmo tempo, notei que vários países e membros do staff da ONU (incluindo os que usufruem da vida em NY) demonstram clara tendência antiamericana, enquanto os EUA questionam: “por que vou financiar uma organização que mostra um forte viés contra meu país?”
2. Percepção de Imparcialidade: em um mundo profundamente polarizado, a imparcialidade da ONU, conforme definida em sua Carta de fundação, deveria ser sagrada. Mas esta imparcialidade é questionada devido a posições de altos funcionários associados à esquerda do espectro político. Por isso a ONU é vista por muitos como uma “organização de esquerda”. Existe uma percepção entre certos comentaristas políticos e autoridades americanas e israelenses de que o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, demonstraria parcialidade sendo indevidamente leniente com estados autocráticos como a China, o Irã, e a Rússia. Eles associam essa percepção à trajetória de Guterres na esquerda europeia e como líder da Internacional Socialista, acusando-o de adotar uma perspectiva de "sul global" ou antiocidental que ignoraria abusos cometidos por ditaduras, enquanto concentraria críticas nos Estados Unidos e em Israel. O assunto é polêmico. O fato básico é que a imparcialidade da organização se encontra sob ataque. Defendo a posição de que futuros candidatos a Secretário-Geral não deveriam ser escolhidos por motivações político-partidárias como representantes da “esquerda” ou da direita". Por exemplo, Brasil e México apoiam a candidata Bachelet do Chile para Secretária-Geral da ONU em janeiro de 2027, por ser de esquerda. A meu ver, isso prejudica a imagem de imparcialidade da organização.
3. Ineficácia em Emergências: a ONU tem sido acusada por não conseguir impedir crises humanitárias graves e atrocidades, com críticos citando casos como o genocídio de Ruanda em 1994, o massacre de Srebrenica em 1995 e o conflito em Darfur.
4. Viés Político: muitos críticos, incluindo vários Secretários-Gerais da ONU e diplomatas, acusaram o Conselho de Direitos Humanos da ONU (CDHNU) de direcionar resoluções de forma desproporcional contra Israel, enquanto ignoram abusos mais graves em outros países como Arábia Saudita, Egito, Mianmar e Rússia. Conforme dados da UN Watch, desde 2015 a ONU aprovou 141 resoluções contra Israel, mais do que o dobro do número de resoluções aprovadas contra todos os outros países juntos. Outro exemplo: a funcionária Francesca Albanese, Relatora Especial da ONU para os Territórios Palestinos, foi criticada por diversos governos, incluindo Estados Unidos, França e Alemanha, por sugerir de modo distorcido e parcial que a culpa pelo ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 - incluindo estupros bárbaros, decapitações e assassinatos de crianças - teria sido justificável por ser uma resposta à "opressão" de Israel. Notem que a maioria das famílias assassinadas eram da esquerda israelense, amantes da paz e ajudavam palestinos.
5. Composição do Conselho de Direitos Humanos: controvérsias surgem quando nações com péssimo histórico em direitos humanos — como Cuba, Irã e Somália — são eleitas para o Conselho de Direitos Humanos. Não há mecanismos para impedir um país soberano de se candidatar. Além disso, a ideia de estabelecer condições para que países integrem um Conselho da ONU seria rejeitada por países que veriam isso como afronta à sua soberania.
6. Corrupção: o escândalo "Petróleo por Alimentos" (Iraque) e outros casos de má gestão levantaram sérias questões sobre corrupção e desvio de recursos em operações da ONU.
Por outro lado, a ONU alcançou inúmeros resultados concretos desde a sua fundação. Exemplos: em 1980, após um esforço de 13 anos, a varíola foi oficialmente erradicada, salvando cerca de 5 milhões de vidas anualmente. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) alcança aproximadamente 90 a 100 milhões de pessoas famintas em 80 países todos os anos, fornecendo ajuda alimentar emergencial. As missões de paz da ONU supervisionaram com sucesso a transição para a paz em países como Namíbia (1989-1990), Moçambique (1992-1994), El Salvador (1991-1995) e Libéria (2003-2018). Além disso, como única organização multilateral que engloba todos os países, a ONU possui agências especializadas como a União Internacional de Telecomunicações (UIT) que coordena os espectros de rádio, as órbitas de satélites e garante o funcionamento coordenado de redes digitais em 190 países; a União Postal Universal (UPU) que harmoniza serviços postais internacionalmente e a Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) que estabelece regras de segurança para viagens aéreas, ajudando a reduzir acidentes fatais apesar do grande aumento no tráfego aéreo. Ou seja: se a ONU não existisse, o mundo teria que inventar outras instituições para coordenar importantes funções intergovernamentais.
Em conclusão, a ONU não tem mecanismos efetivos para evitar guerras e gerenciar disputas mais acirradas como o perene conflito entre Leste (China, Rússia) e Oeste (EUA, Europa). Isso porque países naturalmente defendem sua soberania e nunca dariam um poder acima deles próprios a uma organização global. Os críticos deveriam entender que a ONU não tem poder sobre seus países membros. A verdadeira autoridade emana dos países e não do secretariado da ONU. E nações soberanas tendem a usar e abusar dessa autoridade em proveito próprio.
A ONU é mais bem sucedida em assuntos técnicos “soft” como ajuda humanitária, vacinação, desenvolvimento socioeconômico, governo digital e telecomunicações, proteção à propriedade intelectual, remoção de minas e explosivos, apoio a refugiados, proteção de áreas históricas, entre outros.
Em conclusão, a ONU é uma organização altamente imperfeita, mas importante. Ao mesmo tempo, não tem os mecanismos necessários para cumprir todos os seus mandatos. Mesmo assim, está em constante reforma tentando equilibrar os interesses conflitantes de 193 países membros, sendo essencial como um fórum intergovernamental. Muitos reclamam, mas não há dúvida: a ONU vai existir enquanto os países queiram que ela exista.
Jonas Rabinovitch. Arquiteto urbanista urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior em inovação, gestão pública e desenvolvimento urbano da ONU em Nova York.
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da Redação