A mudança começa em você: Não existe atalho institucional para um problema que começa dentro de cada um

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Em 2024, o Brasil registrou a pior pontuação de sua série histórica no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional: 34 pontos numa escala de 0 a 100. Em onze anos, o país caiu 35 posições no ranking global. Não é um acidente. É um sistema que sobrevive porque há quem decida, todo dia, que vale a pena corromper e ser corrompido.

Quando esse tipo de dado aparece, a reação mais comum é apontar para Brasília. Para o Congresso. Para a política. Para “o sistema”. Como se a corrupção fosse uma entidade que existe separada das pessoas que a praticam. Não é.

Cada pontuação nesse índice é o resultado agregado de milhões de decisões individuais. Cada

propina aceita. Cada favor trocado. Cada vista grossa. Cada vez que alguém escolheu a conveniência no lugar do princípio.

O sistema é feito de pessoas. E as pessoas fazem escolhas.

Vivo e analiso a política há anos. Vi de perto como as instituições funcionam e como elas falham. E posso dizer com precisão onde a maior parte dos problemas começa: não é no topo. É no meio. É na decisão cotidiana de quem decide que irá ceder onde todo mundo ao redor estava cedendo porque era mais fácil.

Existe uma lógica perversa que se instala quando a corrupção se torna rotineira. As pessoas param de se sentir agentes da situação e passam a se ver como vítimas dela. “Eu sozinho não mudo nada”. “Se eu não fizer, outro faz”. “O sistema é assim e não sou eu que vou mudar isso”.

Esse raciocínio parece ser realista. Na prática, é abrir mão da sua responsabilidade. É abrir mão do que só você pode fazer. Transferir para um sistema sem rosto a responsabilidade que tem um nome — o seu.

O sistema não tem vontade própria. Tem pessoas com vontade própria.

Há uma confusão que precisa ser desfeita. Muita gente acredita que a mudança moral de um país depende de quem está no poder. Que basta eleger a pessoa certa, aprovar a lei certa, reformar a instituição certa.

Políticas importam. Leis importam. Instituições importam. Mas nenhuma delas funciona sem pessoas que as sustentem por dentro com valores e princípios sólidos.

Um sistema anticorrupção operado por pessoas que não têm caráter vira ferramenta de poder para lucro de alguns. Uma lei justa aplicada por quem tem interesses pessoais vira letra morta.

Uma instituição é o resultado final de inúmeras decisões individuais — corretas ou incorretas — não a causa delas.

Isso não significa que a estrutura não importa. Significa que somente a estrutura não basta.

A mudança começa antes da lei. Começa antes da eleição. Começa antes da reforma. Começa no momento em que uma pessoa decide que seus princípios não estão à venda. Qualquer que seja o preço.

Você provavelmente já passou por uma situação onde ceder seria mais fácil. Onde o custo de manter o princípio parecia maior do que o benefício. Onde todo mundo ao redor estava fazendo o que não deveria em nome do "todo mundo faz”.

É exatamente nesse momento que o caráter é testado. Não na teoria. Não no discurso. Na decisão concreta, sob pressão, sem plateia.

Integridade é o que você faz quando ninguém está olhando. Quando não há aplauso a ganhar nem punição a evitar. Quando a única razão para fazer o certo é que é o certo.

O Brasil que você quer ver começa na decisão que você toma agora. Na conversa que você não deixa passar. No contrato que você não assina. No favor que você não deve. No filho que você forma.

Não existe atalho institucional para um problema que começa dentro de cada um.

Foto de Claudio Apolinario

Claudio Apolinario

Articulista e analista político.

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