Aliados históricos do PT cobram “projeto de Lula” para agência que eles enfraqueceram

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Recente matéria “Aliados históricos apontam fragilidade da Abin e cobram projeto de Lula”, da Carta Capital, apresenta como “cobrança legítima” a frustração de José Genoino, Ricardo Berzoini e José Dirceu com a suposta fragilidade da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Entretanto, o que fica evidente é o oposto: um grupo de caciques petistas tentando preencher o vácuo de poder que o próprio governo Lula criou.

O seminário “Inteligência de Estado na democracia”, realizado na última quinta-feira (9), em Brasília, foi organizado pela Intelis, entidade que representa os servidores e oficiais de inteligência da Abin e pela Unipop (Instituto Universidade Popular), organização de formação política e educação popular historicamente alinhada à esquerda.

A Intelis atua como representante corporativa dos profissionais da agência, defendendo a carreira, o concurso público e o fortalecimento da inteligência de Estado. Já a Unipop tem perfil de formação militante e promoção de direitos, com forte viés progressista. Juntas, serviram de palco para que ex-dirigentes petistas declarassem que “o Brasil não tem inteligência de Estado”, que a Abin está “no limbo”, sem diretrizes claras da Casa Civil, e cobrassem um projeto estratégico do presidente.

O que esse grupo esperava, ao tirar a Abin do GSI (com forte presença militar) e colocá-la sob a Casa Civil, logo no início do mandato, era um comando político firme, ou seja, alinhado ao projeto do PT. Em vez disso, encontraram um órgão órfão, sem liderança efetiva na Casa Civil, com orçamento modesto, R$ 933 milhões em 2026, dos quais apenas R$ 81 milhões, menos de 10%, destinados às atividades-fim de informação e inteligência, sendo o restante majoritariamente comprometido com pensões e sem as orientações que imaginavam receber.

O artigo de Barrocal dramatiza os números e repete o mantra da “visão de inimigo interno” herdada da ditadura, elogiando indiretamente a extinção do GSI por Dilma. O que não se diz é que esse esvaziamento não começou agora. A Abin patina há anos, inclusive nos governos petistas anteriores, porque a inteligência de Estado nunca foi prioridade real quando o poder estava consolidado. O que incomoda, de fato, esses aliados, é a falta de “diretrizes claras” que sirvam ao partido.

A agência vive, de fato, momentos delicados. Sob a direção de Luiz Fernando Corrêa, indicado pelo Planalto, enfrentou indiciamentos na PF, atritos com a Polícia Federal, pedidos de afastamento de servidores e descontentamento interno. Relatórios como “Desafios de Inteligência 2026” são produzidos, mas o ruído sugere ausência de comando coerente.

O que o seminário da Intelis e da Unipop propõe, na prática, é trocar uma suposta tutela militar por uma tutela partidária explícita. Querem uma Abin “civil” e forte, mas forte para supostamente servir ao projeto de poder do PT em 2026, não necessariamente ao Estado brasileiro como um todo.

Inteligência de Estado exige profissionalismo, continuidade institucional, recursos bem aplicados e, acima de tudo, imparcialidade. Não se constrói isso com seminários organizados por entidade corporativa dos próprios servidores da Abin em parceria com instituto de formação política de esquerda, nem com cobranças públicas de ex-presidentes do PT, conforme está sendo feito no presente.

Os aliados históricos observaram que a Abin está abandonada e foram, eles próprios, deixados de lado pelo governo que ajudaram a reconduzir ao poder. A fragilidade existe. Mas a solução não está em politizá-la ainda mais, sob o disfarce de “reformulação estratégica”. Está em profissionalizá-la, longe de caciques frustrados que hoje cobram o que não souberam construir quando tiveram oportunidade.

A Abin continua órfã. Os que se candidatam a novos “pais” já perceberam que o berço está vazio, porque o governo preferiu manter a agência no limbo a assumi-la abertamente como instrumento de poder.

Foto de Carlos Arouck

Carlos Arouck

Policial federal. É formado em Direito e Administração de Empresas.

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