O caso dos 129 milhões de reais numa visão reflexiva, quase desenhada, da realidade

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Imagine um cenário de um tribunal julgando o escandaloso caso do contrato jurídico surreal, infame e autoconfesso, que beira a obscenidade, de um escritório de advocacia.

E lá, na sua sagrada vez, o advogado de acusação, ipsis litteris como no texto do jornalista, diretor teatral, dramaturgo, escritor e músico, Maurício Nunes, transcrito abaixo, faz exatamente essa leitura do episódio.

Meus caros, não há sacristão no mundo que consiga contestar os indícios apontados, as ilicitudes escancaradas, os comportamentos hipnóticos e nem mesmo os liames entre os protagonistas e os crimes vislumbrados na trama. Em outras palavras, os fatos são incontestáveis, mas há quem tente incubar os fatos pretendendo colocá-los numa chocadeira eterna!

Ah, mas devemos, por obrigação de consciência moral e cívica, levar em conta que estamos falando de Brasil! Que as Cobras e Lagartos de João Emanuel Carneiro se dignem a desaparecer do tribunal.

Ao texto:

“Minha relação com o dinheiro é puramente platônica: eu o admiro de longe, ele me evita ativamente. Por isso, quando leio que alguém assinou um contrato de 129 milhões de reais, sendo pagos com 3,6 milhões por mês, meu primeiro instinto não é inveja, mas a vontade de buscar um psiquiatra para tratar a minha noção de realidade. É uma quantia tão obscena que, se eu a tivesse, eu provavelmente passaria o resto da vida me escondendo num bunker, com medo de que o universo me cobrasse o troco.
O caso em questão envolve uma advogada cuja trajetória jurídica é tão invisível quanto a ética em um cassino de beira de estrada. O sujeito, que faria Tio Patinhas sentir-se um humilde pedinte, paga uma fortuna para ser representado por ela. Mas aí vem a reviravolta digna de um roteiro de Kafka filmado pelo Jerry Lewis: quando o sujeito sente o bafo quente da justiça no cangote, ele, curiosamente, não liga para a sua caríssima defensora, que pelo preço deveria ser a melhor conselheira jurídica do universo. Ele liga para o marido dela. 
É uma coreografia fascinante. O marido, por um acaso do destino (ou por uma conspiração de deuses muito entediados), ocupa um cargo tão alto na hierarquia do universo que ele praticamente decide se a gravidade continua valendo para o resto de nós.
É o tipo de comportamento que me faz questionar a natureza da realidade. É como se um camarada pagasse uma fortuna para uma cardiologista renomada, mas, ao sentir uma pontada no peito, ignorasse o estetoscópio da doutora e ligasse para o marido dela para perguntar se deve tomar uma aspirina ou apenas aceitar o seu próprio fim.
O que temos aqui? Seria um caso de machismo anacrônico, onde o cliente ignora o "talento" milionário da contratada em favor da autoridade de seu "humilde" esposo, ou estamos diante daquela velha e clássica arquitetura de "fachada", onde o dinheiro entra por uma porta jurídica para que a influência saia pela janela dos fundos?
Sigo perplexo no meu mundinho modesto, onde por pagamentos de mais de 3 milhões de reais por mês, eu esperaria que a advogada não apenas me defendesse, mas que também realizasse alguns milagres menores, como transformar água em vinho ou me fazer entender o sucesso de crítica dos filmes do Kleber Mendonça Filho. Mas, aparentemente, no andar de cima, o que se compra não é o saber jurídico, mas sim o telefone certo para se ligar na hora do desespero.”
@atocadoloboescritor (A Toca do Lobo) - Facebook.

https://www.facebook.com/tocadoloboescritor/

Alexandre Siqueira

Vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Independente e Afiliados - AJOIA Brasil - Colunista Jornal da Cidade Online - Autor dos livros Perdeu, Mané! e Jornalismo: a um passo do abismo..., da série Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! Visite:  http://livrariafactus.com.br

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