De Tiradentes a Jair Bolsonaro: O herói e o tempo - da morte exemplar à condenação simbólica
21/04/2026 às 17:05 Opinião
O conceito de herói não é fixo. Ele acompanha o tempo — e revela mais sobre a sociedade que o consagra do que sobre o próprio indivíduo.
No Brasil colonial, Tiradentes foi condenado à morte por conspiração contra a Coroa. Sua execução, em 1792, não foi apenas uma punição: foi um espetáculo público de intimidação. Enforcado, esquartejado e exposto, seu corpo tornou-se mensagem — um aviso claro aos que ousassem questionar o poder estabelecido.
Naquele contexto, o herói não era reconhecido em vida. Era, antes, aquele que morria por uma causa — e, somente depois, transformado em símbolo.
Hoje, o cenário é outro. Não há mais praça de execução, mas há praça pública — digital, permanente e implacável. O conceito de herói deslocou-se: não necessariamente aquele que morre, mas aquele que denuncia, enfrenta estruturas de poder e sustenta sua integridade sob pressão.
No entanto, a forma de punição também mudou — e talvez apenas tenha se sofisticado.
Quando a eliminação física falha ou não é possível, emerge um outro tipo de extermínio: o simbólico. A reputação torna-se o alvo. A honra, o campo de batalha. E o julgamento ocorre em tempo real, diante de multidões conectadas.
Não há corda, mas há linchamento moral.Não há esquartejamento físico, mas há fragmentação da imagem.Não há exposição de restos mortais, mas há exposição contínua de narrativas — muitas vezes dissociadas dos fatos.
O indivíduo permanece vivo, mas aprisionado em versões de si que não controla. Sua história é reescrita por terceiros. Sua identidade pública passa a ser disputada, distorcida, replicada.
Se antes o poder impunha o silêncio pelo medo da morte, hoje o silêncio pode ser imposto pelo medo da destruição da reputação.
A pergunta que permanece é desconfortável:mudaram apenas os métodos — ou também mudamos nossa forma de julgar?
Talvez o verdadeiro desafio contemporâneo não seja apenas identificar heróis, mas discernir fatos em meio ao ruído. Porque, sem esse discernimento, corremos o risco de repetir, em novas formas, os mesmos mecanismos de condenação — agora não mais nas praças de pedra, mas nas vitrines digitais.
E, como na história, o tempo talvez seja o único capaz de separar o condenado do símbolo.
Nesse ponto, a comparação se impõe. Assim como Tiradentes foi, em seu tempo, julgado, condenado e transformado em exemplo pelo poder vigente, também na contemporaneidade figuras políticas como Jair Bolsonaro tornam-se alvo de intensos julgamentos públicos, disputas narrativas e reinterpretações constantes de seus atos e de seu papel histórico. As diferenças de contexto são evidentes, mas o mecanismo — o julgamento sob tensão, sob conflito e sob paixões — permanece.
Resta, então, uma pergunta que o presente não é capaz de responder com isenção: será preciso o distanciamento de décadas — ou até de um século — para que julgamentos de hoje sejam revistos?
Bolsonaro de hoje poderá vir a ser o Tiradentes de amanhã?
Bernadete Freire Campos
Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.