"Quem desconfia fica sábio", diz um aforismo do Guimarães Rosa. Foi o que lembrei ao ver a alegria de alguns com a reprovação, pelo Senado, de Jorge Messias para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). O fato é realmente promissor, mas ninguém sabe o que houve nos bastidores.
Quem, por ofício ou simples perspicácia que a vida apurou, costuma fazer análise do "discurso" das pessoas e observou a fala de Messias depois do resultado (fala sem ressentimentos, sejamos justos, mas muito rasa) não conseguiu imaginá-lo a envergar a toga. Não entro no mérito de quantos, hoje no STF, têm o que se espera de alguém que vai exercer o mais alto cargo da Justiça.
Desde 1894, um indicado para o Supremo não era barrado. E a reprovação de Messias, além de afastar alguém que não tem os atributos mínimos para o cargo, pode ser o início de uma reação do Senado, até aqui encolhido perante o "consórcio" (expressão do saudoso mestre José Roberto Guzzo), leia-se STF e executivo: um aviso para o primeiro e uma rasteira dada no segundo. Mas quem garante que não foi só um soluço republicano? Que acordos controversos haverá por trás?
Davi Alcolumbre, presidente do Senado, é apontado como figura-chave no episódio. E ele é o tipo de político (padrão) que cria dificuldades para negociar facilidades. Uma questão é inevitável: em que medida ele terá aumentado seus trunfos para barganhas nada republicanas? Que transações haverá, caso Lula venha a indicar outro candidato ainda este ano?
Matéria da CBN em 03/02/2019 informou que Alcolumbre virou presidente do Senado tendo, contra si, acusações por "crimes eleitorais, contra a fé pública e uso de documento falso", tramitando em dois inquéritos no STF. Um (nº 4353) sob segredo de Justiça; outro (nº4677) trazendo "detalhes da denúncia encaminhada pelo Ministério Público Federal do Amapá sobre supostas irregularidades cometidas por Alcolumbre na campanha de 2014".
Semanas após virar presidente do Senado, falando ao Estadão, Alcolumbre asseverou que usaria a presidência para barrar a "CPI da Lava Toga" (um clamor à época) e qualquer processo de impeachment de ministro do STF.
Agia, assim, como o juiz que dá uma sentença antes de conhecer as razões das partes. E garantia não incomodar ninguém do STF. (Há dúvidas quanto a estarem os processos ainda trancados nalguma gaveta do STF – situação que o vulgo chama de "rabo preso", ou se já prescreveram.)
Esse foi o seu começo. Na história recente, ele manteve sua coerência. Operando no "comércio de favores", Alcolumbre impediu a prorrogação de duas CPMIs: a do INSS (que investigou o roubo a aposentados) e a CPMI do crime organizado, que acabou mexendo com alguns "intocáveis". Ambas as CPMIs requeriam mais tempo para desvendar avalanches de crimes, mas ele não deixou. É o seu modus operandi: usar regras viciadas do Regimento Interno do Senado para atender interesses nada republicanos. Não haverá surpresa se, resultado de reuniões fechadas, ele impedir a desejada CPMI do Banco Master, com potencial, sabe-se, para desmascarar gente graúda.
A repórter Vera Rosa diz, no Estadão (29/04/2026), que Alcolumbre queria a vaga no STF para Rodrigo Pacheco e que Lula prometera indicá-lo, o que seria uma "retribuição" por tudo que Alcolumbre "fizera para conseguir votos a outros indicados do governo, como Dino para o STF e Paulo Gonet para a Procuradoria-Geral da República." Rosa informa que a indicação de Messias, anunciada em novembro último, irritou Alcolumbre, que chegou a dizer "que Lula veria, a partir de agora, o que era ter o presidente do Senado como inimigo." Os maus também são maus entre si!
Mas a questão é Jorge Messias. Editorial do Estadão, em 21/04/2026, traz informações aterradoras. Por exemplo, como chefe da Advocacia Geral da União (AGU), ele criou a Procuradoria Nacional de Defesa da Democracia, definida no editorial como "divisão de censura da AGU", que, para calar vozes discordantes, "qualifica de antemão conteúdos críticos ou mesmo equivocados como ilegítimos." Poderia ele atacar a Constituição com mais gravidade? "Eis o espírito de um provável futuro ministro do STF, caso o Senado não cumpra seu dever institucional de rejeitar o sr. Messias", advertiu o Estadão.
Pois o Senado rejeitou. E, pelo que se diz, Alcolumbre foi decisivo. Mas haveria a rejeição se ele conspirasse noutro sentido? Hoje ele "está" inimigo do governo. Acaso sabemos de quem ele "está" amigo? E quantos iguais a ele haverá no Senado?
A esta altura, no mundo ideal, eleitores – em especial do Amapá, que nos entregaram senadores patéticos como Alcolumbre e Randolfe Rodrigues - deveriam estar pensando no voto que darão em outubro deste 2026, quando duas vagas para o Senado estarão sendo eleitas, uma chance de renovar aquela casa. Só que a distância entre o mundo real e o mundo ideal é de tal magnitude que nem os foguetes do Elon Musk podem cobrir.
Nisto estamos. A reprovação de Jorge Messias foi o mais republicano que poderia ter ocorrido. Porém, não há como não olhar com reserva para o Senado. Mesmo assim, embora desconfiando, é melhor não se entregar ao pessimismo nem ficar empolgados, que ninguém sabe exatamente o que, de bom e de ruim, ocorre nos bastidores.
Renato Sant'Ana
Advogado e psicólogo. E-mail do autor: sentinela.rs@uol.com.br