O Desespero da Piedade

(atualizando Vinicius)

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Parafraseando Vinicius de Moraes,

venho pedir em oração, neste Dia das Mães,

começando por elas: as mulheres,

que outrora lutavam por todas,

mas que hoje, tantas vezes,

já não reconhecem a dor umas das outras.

.

Senhor,

tende piedade das mulheres

que ainda sofrem as injustiças básicas de sempre,

já tão conhecidas e tão cantadas.

.

Mas tende piedade sobretudo

das mulheres do nosso tempo:

as que não lutam apenas pelo pão,

mas pelo futuro dos filhos.

.

Das que desejam deixar, além da sobrevivência,

um legado de sabedoria, consciência

e verdadeira justiça.

.

Porque não querem legar apenas a lógica da luta,

mas a coragem moral de permanecer humanas

em tempos de brutalidade.

.

Tende piedade das mães

que carregaram bíblias nas mãos

e bandeiras sobre os ombros,

acreditando ainda

que deixariam aos filhos um país menos cruel.

.

Das mães separadas dos filhos pequenos,

presas e injustiçadas,

símbolos da falta de piedade,

que choram em silêncio

enquanto esperam por socorro.

.

Tende piedade também

das mulheres endurecidas pelo poder,

das que perderam a capacidade

de reconhecer a dor de outras mulheres,

e que defendem a justiça

somente quando ela serve às próprias convicções.

.

E no longo capítulo dos homens públicos, Senhor,

tende piedade dos que perderam a vergonha

e chamaram virtude o delito.

.

Dos que inverteram as leis,

punem a verdade

e absolvem a corrupção.

.

Dos que transformaram o crime em discurso,

a mentira em método,

e a honra em motivo de zombaria.

.

Tende piedade dos homens comuns,

enganados por belos discursos

em tempos de eleição;

dos homens bons

que ainda tentam permanecer íntegros

em tempos em que a integridade

parece doença, fraqueza ou solidão.

.

Tende piedade dos juízes sem coragem,

dos legisladores sem consciência,

dos que negociam a dignidade humana

como mercadoria na praça.

.

Mas tende piedade também

dos que assistem calados,

dos que se acostumaram ao absurdo,

dos que já não estremecem diante da injustiça.

.

Porque o mundo enlouqueceu das palavras,

e já não se sabe

quem acusa, quem mente,

quem vende, quem trai.

.

Tende piedade do povo, Senhor,

que é povo e não sabe que é povo;

que sofre, mas aprende a admirar seus algozes;

que entrega sua voz aos tiranos

e chama vingança de justiça.

.

E neste Dia das Mães, Senhor,

tende piedade de todas elas.

.

Das mulheres comuns,

para que não desistam da liberdade simples

de viver em paz,

de criar os filhos sem medo,

de dormir sem desespero,

e de continuar esperando pelo melhor.

.

Das mulheres que ocupam o poder,

para que usem sua influência

não para dividir,

mas para fazer justiça.

.

Justiça verdadeira,

que reconhece a dor humana antes das ideologias,

e que jamais esquece

que toda mãe é, antes de tudo,

um coração em vigília.

.

Porque desesperar, Senhor,

é deixar de esperar.

.

E enquanto houver mães

capazes de ensinar ternura, coragem e consciência,

haverá esperança

de que o mundo reaprenda a ser humano.

.

Por último, Senhor,

tende rigor com aqueles

que usam Vosso Santo Nome

para justificar crueldades humanas.

.

Porque nenhum poder permanece legítimo

quando escolhe quem merece compaixão

e quem deve servir de exemplo.

.

E nenhuma justiça é justa

quando se usa o pêndulo ideológico

para medir a dor humana.

Bernadete Freire Campos

Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.

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