A reação em torno do áudio envolvendo Flávio Bolsonaro e um suposto pedido de apoio financeiro para um filme sobre Jair Bolsonaro expôs mais uma vez um velho problema da política brasileira: o duplo padrão de interpretação conforme o lado ideológico envolvido.
A tentativa inicial foi clara: transformar o episódio em um escândalo político de grandes proporções, como se o simples fato de buscar financiamento privado para uma produção audiovisual fosse, por si só, algo criminoso ou incompatível com a democracia.
Mas aí surge uma pergunta inevitável: quando empresários apoiaram projetos ligados à esquerda, inclusive produções favoráveis ao presidente Lula, onde estava toda essa indignação?
O próprio banqueiro Daniel Vorcaro já foi associado ao financiamento de iniciativas culturais relacionadas ao campo progressista sem que isso gerasse comoção nacional, ataques coordenados ou acusações generalizadas de “ameaça à democracia”.
Quando envolve a esquerda, chamam de cultura. Quando envolve Bolsonaro, tentam transformar em conspiração. E esse contraste ficou evidente nas últimas horas.
Do ponto de vista jurídico, até agora não apareceu qualquer elemento claramente ilegal no episódio envolvendo Flávio Bolsonaro. Pedir apoio privado para um filme não configura crime por definição. O debate, portanto, saiu rapidamente do campo jurídico e entrou no terreno político e narrativo.
Houve, sim, uma tentativa de desgaste. Isso é evidente. Mas também é verdade que o impacto político tende a encontrar limites rápidos, justamente porque boa parte da população percebe a diferença entre uma polêmica midiática e um escândalo concreto.
Além disso, existe um fator ainda mais importante que muitos analistas ignoram: a eleição presidencial de 2026 caminha cada vez mais para uma disputa de rejeição.
E, nesse cenário, o elemento decisivo talvez não seja quem consegue gerar mais manchetes contra o adversário, mas sim quem consegue carregar menos desgaste acumulado perante o eleitorado.
Hoje, pesquisas de opinião já indicam que a rejeição ao presidente Lula segue elevada em parcelas importantes da população, reflexo do desgaste econômico, da polarização e da fadiga política de um governo que enfrenta crescente dificuldade de reconexão popular.
A tentativa de transformar qualquer movimento do bolsonarismo em escândalo permanente pode até produzir barulho momentâneo nas redes sociais, mas não necessariamente altera o eixo principal da disputa eleitoral.
Porque, no fim, eleições não são decididas apenas pela indignação do dia.
São decididas pela soma de rejeições acumuladas ao longo do tempo.
Veja o vídeo:
Emílio Kerber Filho
Escritor e Estrategista Político. Autor do livro: 20 Dias para a Vitória: Os bastidores de uma campanha surpreendente e as estratégias que levaram à vitória eleitoral