
O olhar crítico ou o mal que a Globo faz para você! (veja o vídeo)

18/05/2026 às 10:09 Opinião

O que a Globo faz de bom não é caso para louvação, muito menos agradecimentos - reconhecimento é outra história - , por um único motivo: detentora de concessão pública, é obrigação dela enquanto canal de comunicação, priorizar as finalidades educativas, culturais e artísticas, e mais do que isso, ser um polo de informação.
Considerado como o 4º Poder da República, a imprensa e seus veículos de comunicação, especialmente os canais abertos, têm a exata dimensão dos impactos dos seus conteúdos, de sua capacidade de produção e de penetração para manipular as massas. Do jornalismo ao esporte, da dramaturgia à comédia, do programa de auditório ao reality show, todas as produções têm seu viés de interesses embutido no escopo do conteúdo a ser exibido, muitas vezes, ou quase sempre, carregadas de doutrinação e de oportunismos.
Considerado o maior grupo de comunicação da América Latina, o Grupo Globo é destaque na referência cultural da sociedade por seu poder de capilaridade e experiência. O seu maior trunfo é saber trabalhar de forma subliminar seus objetivos, da intenção à pretensão, e os meios que prendem a atenção da audiência com suas produções.
No esporte, em pleno regime militar, o apoio da Globo era evidente e intocável. Quem não se lembra da campanha ufanista para a Copa do Mundo de 1970 com o - Noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração... Todos juntos vamos, pra frente Brasil, salve a seleção! Anos depois, em editorial no jornal O Globo, a nova geração diretiva do grupo negou, e chamou de erro, o apoio da gestão do já falecido pai, Roberto Marinho.
É assim no seu jornalismo, até recentemente, por exemplo, quando criou um tsunami de terror na pandemia, de 2020 até 2022. Pânico que tem reflexos até os dias de hoje.
No seu mais famoso reality show, a Globo induz o povo ao consumismo, de produtos a modismos, enlatando polêmicas que vão da conduta moral e emocional à desumanização da empatia.
E quando se fala em moldar toda uma sociedade, o trabalho é de longo prazo. Conseguem ruir com a tradicionalidade cultural, costumes e desregrar o comportamento de gerações causando crise de identidade coletiva, normalizando o que não é padrão no pensamento brasileiro, envernizando o que não é tradição, e ao mesmo tempo, quebrando a cultura com a contracultura. Por décadas!
Um olhar crédulo para tudo isso vai manter você um refém ad aeternum.
O empresário, autor e palestrante Marcelo Toledo retrata isso, claramente, em vídeo intitulado A Globo Te Programou, ao expor o “Padrão Globo de Televisão” em suas telenovelas, ao longo de mais de 50 anos. Visando mudar o espectro político e cultural do brasileiro, as tramas sempre trazem personagens que carregam alusões do bem ou do mal enviesadas em si mesmas, quando não caricaturadas, com um envelopamento que reproduz o brasileiro médio.
Assista:
Há tempos, isso me incomoda, e inspirado neste trabalho que o Marcelo apresentou, resolvi transpor o mundo da comédia que traz no bojo do lúdico e da sátira a mesma sanha de perfumar o inverso de princípios e valores da sociedade, também conhecido como o tal do politicamente correto. Exploram e transformam a inocência e a pureza do riso em uma tragédia imperceptível àqueles presos ao conteúdo travestido pelo tom bem-humorado, porém, malicioso no contexto. Os paradigmas da família brasileira estão definitivamente comprometidos, à beira do colapso social.
Literalmente, o conceito relativamente recente dos globais acaba com o eterno paradoxo entre a “arte imitando a vida” (atribuída a Aristóteles) e a “vida imitando a arte” (atribuída a Oscar Wilde). A opção deles é categórica e prática para a tese de Wilde.
Para ilustrar, fui buscar em seis produções da platinada, humorísticos no formato de sitcom. Para ficar mais próximos de nossa realidade atual, a fim de nos propor uma melhor percepção, elenquei programas produzidos neste século e que têm alguns sinais de convergência entre si.
A Grande Família (2001 a 2014), Toma Lá, Dá Cá (2007 a 2009), Tapas & Beijos (2011 a 2015), Vai Que Cola (2013 a 2026), Tô de Graça (2017 a 2026) e O Dono do Lar (2019 a 2025).
Em comum, os cenários são ambientados em subúrbios ou bairros populares, com famílias comuns, mas desajustadas mais por fatores do cotidiano do que propriamente do comportamental dos seus personagens sempre apresentados pela normalidade. Sempre abordam a religião, drogas, bebidas, gênero, tretas e trambiques, muitas vezes sombreados pelo mau-caratismo, perversidade e muita esperteza. Sempre se relacionam com naturalidade contrariando o que hoje é criminalizado (literalmente falando), com muito bullying, gordofobia, homofobia, transfobia, racismo, discriminação social, e até casos de ideologia política explícita.
Mas o principal ingrediente comum em todos os programas é o sexo, e suas variações conforme o gosto de seus autores.
A Grande Família (2001 a 2014)
A Grande Família, talvez seja o marco da transição entre todos estes fatores. Lançada em 2001, a família Silva é o núcleo da trama, formada pelo patriarca Lineu (Marco Nanini), a esposa Nenê (Marieta Severo), os filhos Bebel (Guta Stresser) e Tuco (Lúcio Mauro Filho), e o genro, casado com a Bebel, Agostinho Carrara (Pedro Cardoso).
No perfil dos protagonistas e dos personagens do entorno, nós encontramos um metódico e honesto, a dona de casa, trabalhador, folgado e preguiçoso, mulherengos, relacionamento poligâmico, mas topamos também com trambiqueiros e criminosos tratados como “boa gente”. Sempre, e de forma, digamos, mais sutil, há momentos picantes entre os personagens, de ações politiqueiras e de “manifestações de revolução social”.
De uma maneira geral, a transição a que me referi, em parágrafo anterior, é percebida quando se vê uma defesa contra preconceitos no âmbito social, político e religioso, longe das aberrações que hoje são realidades. Mas percebe-se pequenas introduções (e alfinetadas) nesses aspectos.
Daqui para frente, as situações guardam personagens e ações mais agressivas social e culturalmente falando.
Toma lá, dá cá (2007 a 2009)
Para começar, a série tem um eixo familiar centrado em dois casais, que haviam sido casados anteriormente um com o outro (cônjuges trocados). Apresentando-os, Mário Jorge (Miguel Falabella) é casado com Celinha (Adriana Esteves), que por sua vez era casada com Arnaldo, que na série é casado com a ex do Mário Jorge, a Rita (Marisa Orth), e que moram em um condomínio, em apartamentos porta a porta, e apesar da liberdade que tem para transitar uns na casa dos outros, os encontros sempre causam grandes “ofensas” entre eles.
Há na narrativa, três filhos, todos desajustados moral e emocionalmente, e nas famílias como um todo, fluídos de mau-caratismo na expectativa de sempre querer levar vantagem e facilidades em algo. Dos demais personagens, uma empregada que é tratada de forma tosca e preconceituosa. Uma lésbica que é desdenhada, ironizada e injuriada, por essa condição durante todos os episódios que aparece. Uma avó totalmente pervertida sexualmente, onde praticamente todo o seu texto é nessa tendência, e que tem na personagem um roteiro de barbaridades para a busca do prazer. Há, ainda, a síndica do condomínio, casada com um homossexual, que é a cara do político brasileiro; abusador, oportunista e corrupto.
Tapas & Beijos (2011 a 2015)
Neste enredo, os personagens principais - os casais Fátima (Fernanda Torres) e Armane (Vladimir Brichta), e Sueli (Andréa Beltrão) e Jorge (Fábio Assunção), são os verdadeiros paladinos do desequilíbrio social e do troca-troca. Não há uma família formada no conjunto dos personagens, exceto, um deles (Armane) que é casado, tem cinco filhos, cuja mãe não aparece na história, e que tem uma amante oficial (Fátima) que aceita tal condição.
Na trama, os casais vivem em conflitos de relacionamento, e levar outro (ou outra) para suas camas é praticamente uma rotina para eles, ainda que não admitam ficar sem seu par. Há um negro na história, ex-presidiário, sempre com subemprego. Há um sujeito ignorante que trata as situações do dia a dia com a violência, que é casado com uma mulher trans, um advogado mau-caráter e picareta, e até uma dançarina de boate sempre às voltas com os personagens principais.
Na órbita dos dois casais sempre tem personagens que entram na trama apenas e tão somente para se relacionar com eles ou elas, até perdurando por um bom período na série.
O Dono do Lar (2019 a 2025)
Talvez o mais comportadinho dos programas. A série carrega mais no aspecto da linguagem utilizada entre os personagens, cheio de malícias erotizadas e estereotipização dos personagens, como marca registrada. O que não faltam são as alcunhas para a estética física dos personagens, como para o gordo e para os idosos da série, embora não deixe de apresentar duas taradas sexuais na família (mãe e irmã), personagens fixas, porém, em temporadas diferentes. O programa sempre traz personagens para compor o tema do episódio, e invariavelmente, acabam na cama delas.
A família é formada pelo marido Américo (Maurício Manfrini), um eterno desempregado, e sua mulher Luciana (Roberta Santiago), os filhos, Miguel (JP Rufino), filho do primeiro casamento do Américo, e Michelli (Lili Siqueira), além do cunhado (Estevam Nabote), irmão da Luciana, que sempre contracenam com a sogra, quando não, a irmã da sogra, o pai e o tio do marido Américo. A humilhação é condição sine qua non para dois dos personagens. O próprio Américo e sua família, porque vive de favor na casa, e do seu pai sempre chamado de corno, pelo próprio filho, por ter a esposa ido morar com outro.
O suprassumo da ideologização mais pesada acontece em Vai Que Cola (2013 a 2026) e em Tô de Graça (2017 a 2026).
Vai Que Cola (2013 a 2026)
A família tem apenas dois membros, mas é a série que traz o maior elenco entre os fixos, os secundários e participações especiais. A mãe é Maria Joana (Catarina Abdalla), a dona Jô, e sua filha Jéssica (Samantha Schmutz). O pai Toni Manchette (Sérgio Loroza) aparece apenas em episódios em que é parte da trama. Dona Jô está em seu terceiro casamento, sendo o último com um homossexual que não se assume como tal, também conhecido como gay enrustido.
O principal ambiente cenográfico é uma pensão no Méier, mas, provavelmente, pela longevidade do programa, já foi vivido em temporadas em um apartamento de luxo no Leblon, em uma casa na praia, em área rural, e até em Miami e em algum lugar nas arábias. O enredo conta sempre com as características dos personagens, e aqui a coisa começa a ficar confusa. Sempre entremeada nas temáticas, a prática de xingamentos conceituais é comum, com uso de expressões como piranha, puta, baleia, orca, balofo, viado, gay, sapatão, negão, magrelo, branquelo, burro, sequelado, ladrão, falso, picareta, e por aí vai.
Dona de uma pensão, dona Jô é maconheira e tem sua própria hortinha à disposição. A filha, Jéssica, tem dois namorados fixos, um para dias pares e o outro para dias ímpares, mas entre idas e vindas na história, sempre está “pegando” um aqui, outro ali (sem limites). São vários os tarados e tarados, e entre eles se destaca a viúva oferecida (que se diz dona do “mexilhão fumegante” e que tem todinho em suas mamas) de um bicheiro e líder de uma comunidade da região, e uma moradora de região nobre do Rio de Janeiro que vai ao subúrbio onde a história se passa, em busca de homens típicos da zona norte para seus prazeres. Dos gays, o mais evidente e sem pudores, é um sonhador que almeja alcançar o estrelato. O personagem é, ao mesmo tempo, clamorosamente assumido e caricato.
Quase sempre, a temática dos episódios passa por envolvimento com trapaças e tretas, e um curioso personagem é o centro das atenções. O falecido Paulo Gustavo é Valdo Lacerda, um fugitivo da polícia, envolvido em roubo de velhinhos (só coincidência - será a vida imitando a arte?). Uma intencional mistura da vida real com a vida do personagem pode causar algum estranhamento para quem não sabe das “coisas”. O personagem é hétero, mas com os trejeitos homossexuais (naturais) do ator, Não se apresenta o personagem com alguma relação afetiva carnal com nenhum outro personagem do enredo. Nada, zero! Mas cacos (expressão para textos fora do roteiro incluídos por atores) de sua vida real, vira e mexe, são citados, especialmente de sua relação com seu companheiro com quem se casou.
Tô de Graça (2017 a 2026)
Se existe uma família nada convencional no mundo da televisão, esta é a família da Maria da Graça Xuxa Meneghel dos Santos, a Graça (Rodrigo Sant’Anna). Moradora de uma favela carioca, ela vive como pedinte nas ruas para sustento da casa. Tem 14 filhos, mas apenas cinco deles (inicialmente eram sete) vivem com ela num barraco da comunidade.
Típica barraqueira e fortemente estereotipada como uma mulher esculachada, Graça é separada (seu marido foge com uma vizinha), que convive com uma desordem institucionalizada numa só família e que ilustra bem o contexto para aceitação dos diferentes, especialmente na questão do gênero.
Tem um filho que é homossexual muito caracterizado como feminina, Maicon Marrone Jackson Five dos Santos (Andy Gercker) ; uma filha que é lésbica sempre acompanhada de uma parceira, Mariah Carey dos Santos - Marraia Karen (Evelyn Castro) ; a filha ridicularizada por todos por sua feiura, Britney Spears dos Santos - Briti Sprite (Izabelle Marques); o ex-presidiário pilantra sempre às voltas com a polícia e preso, Pablo Escobar dos Santos (Estevam Nabote); e a barraqueira metida a gente fina, Sarajane dos Santos (Roberta Rodrigues).
No entorno do elenco principal, temas sociais como o convívio de uma comunidade são explorados à exaustão. O líder da área, o dono do bar, a vizinha fofoqueira,
Agora, quem sabe alguém se prontifica a trazer os protagonistas da programação musical da emissora, com seus ritmos, musicais e tele festivais, com seus artistas cada vez mais extravagantes e bizarros. Eles também fazem parte do processo de metamorfose e mumificação da sociedade e cultura nacional.
Eu fiz a propaganda, agora e com você! Tenha o olhar crítico para não se tornar vítima da programação global. Pronto, tá liberado!
Alexandre Siqueira
Vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Independente e Afiliados - AJOIA Brasil - Colunista Jornal da Cidade Online - Autor dos livros Perdeu, Mané! e Jornalismo: a um passo do abismo..., da série Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! Visite: http://livrariafactus.com.br












