O balcão de negócios: Como o dinheiro público virou instrumento de poder no Congresso brasileiro

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Existe uma pergunta que raramente é feita durante as campanhas eleitorais: por que um  deputado federal ou senador investe tanto para se reeleger?

A resposta oficial é serviço público, representação, vocação política. A resposta real, para  muitos, está no orçamento.

No Brasil, o orçamento se transforma em instrumento de negociação. O presidencialismo de  coalizão, com seus 30 partidos registrados, faz com que o Executivo dependa do apoio do  Congresso para governar — e esse apoio tem preço. O preço é pago em emendas parlamentares.

O mecanismo funciona assim. O parlamentar indica para onde vai uma fatia do orçamento  federal — obras, equipamentos, transferências para municípios da sua base. Em troca, vota com  o governo. O governo garante a base. A base garante o mandato. E o ciclo se fecha com  dinheiro público que o contribuinte jamais soube que estava sendo negociado.

Isso não é especulação. É arquitetura institucional documentada.

As emendas de relator-geral do orçamento — chamadas pela imprensa de "orçamento secreto"  — chegaram a movimentar bilhões de reais sem que fosse possível identificar qual parlamentar  indicou o recurso, qual o critério para a escolha do beneficiário ou como o dinheiro seria  efetivamente gasto. O próprio Tribunal de Contas da União apontou essa falta de rastreabilidade  em 2021.

Esse modelo criou um verdadeiro balcão de negócios, onde a liberação de verbas é usada como  moeda de troca para obter apoio político no Congresso. A alocação de recursos públicos deixou  de seguir critérios técnicos e passou a obedecer a interesses políticos.

O orçamento secreto foi declarado inconstitucional. Mas o problema não era o nome — era a  lógica. E a lógica sobreviveu.

Após a extinção do orçamento secreto, o Congresso criou novas modalidades de emendas — de  comissão e de bancada — que também foram questionadas por falta de transparência. O  instrumento muda. O mecanismo permanece.

Quem esteve nesses ambientes sabe que a conversa raramente começa pelo mérito do projeto.  Começa pela base. Pela região. Pelo eleitorado que precisa ser atendido antes da próxima  eleição. O dinheiro público entra na equação não como recurso a ser bem aplicado — mas como  garantia de sobrevivência política.

E é aqui que o cargo deixa de ser mandato e vira patrimônio.

Porque quem controla emendas controla prefeitos. Quem controla prefeitos controla votos.  Quem controla votos se reelege. E quem se reelege volta a controlar emendas. O ciclo é perfeito  — para quem está dentro. Para o contribuinte que financia cada etapa desse ciclo, é um  sequestro silencioso do dinheiro público.

O problema não é a emenda em si. Emendas parlamentares são um instrumento legítimo de  participação do Legislativo na alocação de recursos — quando seguem critérios técnicos,  quando são públicas, quando podem ser auditadas. O problema é quando a emenda deixa de ser  instrumento de política pública e vira instrumento de política eleitoral.

A diferença entre os dois é simples: no primeiro caso, o critério é a necessidade do cidadão. No  segundo, é a necessidade do mandato.

Para o eleitor de centro e de direita, a questão não é ideológica. É republicana. Um Estado que  usa o dinheiro do contribuinte para financiar a permanência de quem já está no poder não está  servindo ao cidadão. Está servindo a si mesmo.

O que cada um pode fazer começa antes da urna. Pesquisar como o candidato usou emendas em  mandatos anteriores — essa informação é pública no Portal da Transparência. Perguntar para  onde foi o dinheiro e o que foi entregue. Desconfiar de quem promete muito em ano eleitoral e  não apresenta resultado dos anos anteriores. E votar considerando o histórico, não apenas o  discurso. Quem não presta contas do dinheiro público no mandato não vai prestar depois da  reeleição.

A solução passa por transparência total — nome do parlamentar, critério da indicação, destino  final do recurso, resultado entregue. Não como exceção. Como regra. Auditável por qualquer  cidadão, em tempo real.

Enquanto o orçamento for negociado no escuro, quem manda no orçamento vai continuar  mandando no voto.

E pagando a conta com o dinheiro de quem trabalha.

Claudio Apolinario

Articulista e analista político.

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