Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

Nem tanto à Oprah, nem tanto à Catherine

A questão parece ser definir o limite entre galanteio e assédio.

O galanteio é quando a pessoa gosta do que ouviu, mesmo que não se interesse, e diga "não". O assédio, quando não gosta, não se interessa - mesmo que, por algum motivo, acabe tendo que dizer "sim".

No galanteio, você elogia. No assédio, importuna.

Um galanteio insistente pode se tornar assédio.

Um assédio, mesmo que fugaz, jamais será um galanteio.

Assediar é, literalmente, sentar-se ao lado. Ao cercar uma cidade, o exército inimigo sentava-se do lado de fora das muralhas e esperava que a cidade sitiada capitulasse.

Galantear, por sua vez, é entreter, divertir, alegrar.

Não dá pra confundir.

Um quer conquistar pelo sorriso; o outro, pela força, pelo cansaço.

Entre um e outro há a azaração, a cantada, a paquera, o xaveco, o flerte - com graus diferenciados de atrevimento, irreverência, insolência, inconveniência, abuso.

Espera-se do homem que corteje, que tenha iniciativa, que não desista ao primeiro obstáculo. E da mulher, que ofereça resistência. É esse o jogo que vem sendo jogado há séculos - e cujas regras começam a mudar.

O primeiro passo é definir até onde "não" é "não".

"Não" tem sido "Não mesmo", "Não, mas insista mais um pouco", "Talvez, se você tiver bons argumentos", ou "Sim, mas não posso dizer isso ou você vai me achar fácil demais e desistir".

Para que o galanteio não se embaralhe com o assédio, é preciso que as partes em litígio (sim, virou um litígio) façam um pacto: não se insiste se o outro disser "não"; ninguém diz "não" quando quiser dizer "sim".

Aí o jogo fica limpo.

PS 1. Mulheres assediam mulheres; mulheres assediam homens; homens são assediados e recebem cantadas de homens e de mulheres. O que conta é o comportamento, não o gênero.

PS 2. Uns precisam aprender a ouvir e acatar o "não", uns precisam aprender a deixar de lado a vergonha de dizer "sim".

PS 3. A dança do acasalamento pode perder um pouco da graça, ter sua coreografia reduzida a um passo pra frente ou um passo para trás. Mas se isso servir para evitar humilhação, sofrimento, vergonha, desrespeito, terá valido a pena.

PS 4. Entre Oprah e Harvey, Kevin, Ben, Dustin, Sylvester, Bill, Donald e Zé, fico com a Oprah. Entre Oprah e Catherine, meu voto é na Catherine.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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