O governo das portarias: Quando o poder se sobrepõe ao debate político

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Nos últimos anos, uma mudança silenciosa parece ter ocorrido dentro da estrutura do poder federal brasileiro.

Enquanto governos anteriores apostavam fortemente em decretos presidenciais — instrumentos assinados diretamente pelo chefe do Executivo e submetidos a intenso debate político e judicial — o atual modelo parece caminhar por outra direção: a expansão do poder administrativo pulverizado.

Hoje, decisões relevantes surgem cada vez mais por meio de:

* portarias,
* resoluções,
* instruções normativas,
* atos de estatais,
* e regulamentações internas.

Tudo assinado longe dos holofotes do plenário do Congresso Nacional.

A MUDANÇA DE MÉTODO

Durante o governo Bolsonaro, o uso de decretos presidenciais foi marca registrada da gestão. Houve inclusive grandes “revogaços” administrativos e reformas estruturais feitas diretamente pelo Executivo.

Já no atual governo Lula, críticos observam uma estratégia diferente: menos enfrentamento direto no Congresso… e maior utilização da máquina administrativa e das estatais como instrumento regulatório.

Portarias ministeriais e atos internos passaram a assumir protagonismo em áreas estratégicas.

O PODER DAS ESTATAIS

O crescimento da atuação normativa de órgãos vinculados ao governo e de estruturas estatais chama atenção.

A própria área federal responsável pelas estatais mantém extensa produção de portarias administrativas, normas internas e atos regulatórios ligados à governança pública.

Na prática, isso permite que decisões de enorme impacto sejam implementadas sem necessariamente passar pelo desgaste político de votações legislativas amplas.

A QUESTÃO CENTRAL

A dúvida que emerge é simples:

Estaríamos diante de uma descentralização técnica da administração… ou de uma forma indireta de governar sem depender tanto do Congresso?

Para apoiadores do governo, trata-se apenas de modernização administrativa e reorganização institucional.

Para críticos, porém, existe uma tentativa de transferir decisões politicamente sensíveis para estruturas burocráticas menos expostas ao debate público.

O RISCO DO GOVERNO INVISÍVEL

O problema não está apenas no instrumento utilizado.

Portarias são legais.

Resoluções são legais.

Atos administrativos fazem parte do Estado.

Mas quando mecanismos técnicos começam a substituir o debate político aberto, surge um fenômeno perigoso: o crescimento de um governo operacional invisível.

Um governo que regula muito… mas discute pouco.

A PERGUNTA QUE FICA

O Brasil está apenas vivendo uma nova forma de gestão pública?

Ou estamos assistindo à ascensão de um modelo em que o poder administrativo passa a valer mais do que o próprio debate legislativo?

Talvez essa seja uma das discussões institucionais mais importantes do país hoje.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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