O governo das portarias: Quando o poder se sobrepõe ao debate político
26/05/2026 às 09:46 Opinião
Nos últimos anos, uma mudança silenciosa parece ter ocorrido dentro da estrutura do poder federal brasileiro.
Enquanto governos anteriores apostavam fortemente em decretos presidenciais — instrumentos assinados diretamente pelo chefe do Executivo e submetidos a intenso debate político e judicial — o atual modelo parece caminhar por outra direção: a expansão do poder administrativo pulverizado.
Hoje, decisões relevantes surgem cada vez mais por meio de:
* portarias,
* resoluções,
* instruções normativas,
* atos de estatais,
* e regulamentações internas.
Tudo assinado longe dos holofotes do plenário do Congresso Nacional.
A MUDANÇA DE MÉTODO
Durante o governo Bolsonaro, o uso de decretos presidenciais foi marca registrada da gestão. Houve inclusive grandes “revogaços” administrativos e reformas estruturais feitas diretamente pelo Executivo.
Já no atual governo Lula, críticos observam uma estratégia diferente: menos enfrentamento direto no Congresso… e maior utilização da máquina administrativa e das estatais como instrumento regulatório.
Portarias ministeriais e atos internos passaram a assumir protagonismo em áreas estratégicas.
O PODER DAS ESTATAIS
O crescimento da atuação normativa de órgãos vinculados ao governo e de estruturas estatais chama atenção.
A própria área federal responsável pelas estatais mantém extensa produção de portarias administrativas, normas internas e atos regulatórios ligados à governança pública.
Na prática, isso permite que decisões de enorme impacto sejam implementadas sem necessariamente passar pelo desgaste político de votações legislativas amplas.
A QUESTÃO CENTRAL
A dúvida que emerge é simples:
Estaríamos diante de uma descentralização técnica da administração… ou de uma forma indireta de governar sem depender tanto do Congresso?
Para apoiadores do governo, trata-se apenas de modernização administrativa e reorganização institucional.
Para críticos, porém, existe uma tentativa de transferir decisões politicamente sensíveis para estruturas burocráticas menos expostas ao debate público.
O RISCO DO GOVERNO INVISÍVEL
O problema não está apenas no instrumento utilizado.
Portarias são legais.
Resoluções são legais.
Atos administrativos fazem parte do Estado.
Mas quando mecanismos técnicos começam a substituir o debate político aberto, surge um fenômeno perigoso: o crescimento de um governo operacional invisível.
Um governo que regula muito… mas discute pouco.
A PERGUNTA QUE FICA
O Brasil está apenas vivendo uma nova forma de gestão pública?
Ou estamos assistindo à ascensão de um modelo em que o poder administrativo passa a valer mais do que o próprio debate legislativo?
Talvez essa seja uma das discussões institucionais mais importantes do país hoje.
Jayme Rizolli
Jornalista.