
A anulação da condenação de Bolsonaro e a liminar de Nunes Marques

28/05/2026 às 10:03 Opinião

Bolsonaro pode ter sua condenação ANULADA!
Pouca gente está fazendo a análise política da revisão criminal de Bolsonaro. E é exatamente aí que está o jogo.
Comecemos pelo óbvio: Nunes Marques, sorteado relator, JÁ deu liminar em revisão criminal contra condenação da Primeira Turma. Foi em 2022, no caso do senador Acir Gurgacz. Suspendeu os efeitos da condenação por decisão monocrática. Sete dias depois, o Plenário derrubou — Moraes liderou a divergência vencedora.
Ou seja: há precedente direto, do mesmo ministro, no exato cenário processual. A pergunta não é se Nunes Marques pode conceder a liminar. É se ele vai.
Na prática, há base jurídica robusta para o deferimento: incompetência da Primeira Turma para julgar ex-presidente, nulidade da delação Cid, cerceamento de defesa. Todas teses que o próprio voto de Fux já reconheceu nos autos do julgamento original.
O problema vem depois. O referendo da liminar é do Plenário, e o Plenário é o mesmo que validou o processo do início ao fim. Moraes, Dino, Zanin e Cármen Lúcia votam contra com certeza. Toffoli e Fachin acompanham. Para a liminar sobreviver, seriam necessários os votos de Mendonça, Fux, Nunes Marques, Gilmar Mendes e mais um. Conta difícil.
Vale lembrar que o cenário Gurgacz foi resolvido em sete dias. Sessão virtual extraordinária, liminar cassada, condenação restabelecida. Mas o caso de Bolsonaro tem outra densidade política, e isso muda o cálculo de cada ministro.
Aqui entra a variável decisiva: pedido de vista. Se Mendonça, Fux ou o próprio Gilmar pedir vista após o voto de Nunes Marques, o referendo fica suspenso. Foi o que aconteceu no caso João Rodrigues em 2018 — Toffoli pediu vista, e o julgamento ficou parado. Para Bolsonaro, isso significaria liminar mantida por meses, talvez cruzando com a campanha de 2026.
Mesmo uma liminar derrubada em uma semana produz efeitos políticos relevantes. Um ministro do Supremo fundamentando que há plausibilidade jurídica nas teses de nulidade. A fratura interna da Corte exposta em votação registrada. Combustível para a frente política da anistia e para a pressão internacional já em curso.
Na verdade, é por isso que a revisão criminal não pode ser tratada como aposta isolada. Ela é uma das frentes, ao lado da dosimetria (já travada por Moraes), da anistia no Congresso e das sanções Magnitsky avançando sobre o togado. Cada frente eleva o custo de manutenção integral do show trial.
A Dosimetria, ou mesmo a Anistia, vale repetir, é injusta. Partiria do pressuposto falso de que houve tentativa de golpe. Mas funciona como flanco político real, especialmente se o Supremo perceber que a continuidade da farsa está custando caro internacionalmente.
O que está em jogo não é só a sorte de Bolsonaro. É a possibilidade de o regime judicial montado a partir de 2019 começar a ser desmontado por dentro, pela ANULAÇÃO formal das suas decisões mais simbólicas.
O Plenário decidirá sob pressão inédita: internacional, política, jurídica. A liminar de Nunes Marques, se concedida, seria o primeiro teste real desse arranjo.
Leandro Ruschel.
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