
Daniel Vorcaro: de “príncipe” do sistema financeiro a uma figura rejeitada pelo mercado e pelas elites do poder

02/06/2026 às 09:14 Opinião

Levado por Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Dilma Roussef, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, se encontrou com o presidente Lula da Silva fora da agenda. O encontro foi sigiloso, e ocorreu no dia 4 de dezembro de 2024, no Palácio do Planalto. Nessa ocasião, Lula teria aconselhado o banqueiro a não vender o Banco Master ao BTG Pactual, de André Esteves. Segundo a imprensa, a reunião contou com a presença do ministro da Casa Civil, Rui Costa, do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, do próprio Guido Mantega e do atual presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, na época apenas indicado para o cargo. Em nota, o BTG afirmou que jamais quis comprar o Master, e que sua atuação “limitou-se à aquisição estratégica de ativos não problemáticos, visando prover liquidez à instituição em janelas pontuais de mercado". Mantega foi “consultor” do Master com um salário de R$ 1 milhão por mês.
A Polícia Federal (PF) também descobriu que o banqueiro dialogava com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), entre os quais Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. Com Alexandre de Moraes as conexões revelam contatos diretos, além de um contrato milionário envolvendo o escritório de advocacia da esposa do magistrado: R$ 129 mi9lhões. A PF encontrou registros no celular do banqueiro sugerindo encontros pessoais com o ministro em Brasília e em Campos do Jordão (SP). Em uma das mensagens interceptadas, Vorcaro relata à sua noiva estar indo ao encontro de Moraes. Com o ministro Dias Toffoli, os vínculos envolvem o uso de jatinho particular, negócios e troca de mensagens. Registros da Anac revelaram que o ministro viajou em jatinho pertencente a uma empresa da qual Daniel Vorcaro era sócio. A viagem ocorreu para assistir à final da Libertadores em Lima, no Peru. Mensagens e dados extraídos do celular de Vorcaro apontam para conversas sobre negócios e cobranças de dívidas envolvendo um resort (Tayayá), supostamente ligado a familiares do ministro. Toffoli negou ter qualquer tipo de proximidade pessoal com o advogado de Vorcaro e afirmou que amizades com empresários donos da aeronave motivaram as viagens.
O ministro Gilmar Mendes utilizou, em janeiro de 2025, um jato da empresa Prime You, da qual Vorcaro era sócio. O ministro declarou publicamente que não sabia da relação do banqueiro com a empresa e que pegou carona a convite do empresário Marcos Molina (acionista da BRF/Marfrig). No julgamento que determinou a prisão preventiva de Vorcaro, Gilmar acompanhou o voto do relator, ministro André Mendonça, pela manutenção da prisão, mas ressaltou pontos de divergência. Ele criticou o que chamou de métodos "lavajatistas" e excessos na condução do caso. Mendes foi uma voz ativa contra o vazamento de conversas privadas de cunho íntimo de Vorcaro. Ele classificou a exposição do banqueiro como uma "barbárie institucional" e defendeu a aplicação da LGPD Penal para resguardar o sigilo em investigações.
O ex-ministro Ricardo Lewandowski também tinha relações com o banqueiro, entre as quais a prestação de serviços de consultoria jurídica pelo escritório de advocacia ligado à sua família (administrado por sua esposa e filho), o qual prestou consultoria ao Banco Master por R$ 250 mil mensais. O contrato foi até 2025. Já com a família Bolsonaro, as relações de Vorcaro (pelo menos por enquanto), giram em torno do financiamento do filme biográfico “Dark Horse”, sobre vida de Jair Bolsonaro. O senador Flávio Bolsonaro cobrou repasses milionários ao ex-banqueiro para financiar o filme, segundo afirma. Conversas e áudios divulgados em maio de 2026 expuseram o senador pressionando o banqueiro para cumprir os pagamentos do contrato, além da visita feita a Vorcaro após a sua prisão com uso de tornozeleira eletrônica. Com tanto conhecimento não é sem razão a alcunha de "príncipe" do sistema financeiro atribuída a Vorcaro. E isso está ligado à rápida ascensão do Master e à capacidade de Vorcaro de circular entre a elite econômica, o meio político e as esferas de poder em Brasília. Na sua gestão o banco saltou de um patrimônio de R$ 9 milhões em 2019 para cifras bilionárias, até a descoberta do rombo financeiro que pode chegar a R$ 500 bilhões. Agora, em vez de “príncipe” do sistema financeiro, Vorcaro se tornou uma figura controversa e rejeitada pelo mercado e pelas elites do poder. Além disso, está preso e prometendo uma delação que ninguém acredita; nem ele próprio.
Luiz Holanda
Advogado e professor universitário












