Moraes na “colônia de férias de Lisboa”: O pedido desnecessário
03/06/2026 às 09:10 Opinião
Começaram os “trabalhos” na colônia de férias de Lisboa. Não vi nenhum registro na edição impressa do Estadão. Não verifiquei na Folha ou no Globo, mas é pouco provável que haja algum nesses jornais também. Assim é de relevante os “debates” que por lá estão se fazendo.
O site O Antagonista, talvez por não ser limitado pela diagramação e pelo custo do papel imprensa, faz um resumo da fala do milionário ministro Alexandre de Moraes no evento. Vou resumir todo o palavreado do milionário ministro em uma frase: “as Big Techs têm interesses políticos e ideológicos e, portanto, precisam ser reguladas pelo Estado”.
A fala do ministro começa com um erro factual, o de que os dados dos usuários são usados sem conhecimento destes. Isso pode ter acontecido lá no início, mas hoje ninguém é ingênuo de achar que sua navegação na internet é anônima. Só o milionário ministro acha que somos todos um bando de ingênuos e ele é o único esperto na sala.
E aqui entramos no cerne da falácia do milionário ministro. Segundo a sua narrativa, os brasileiros seríamos todos um bando de acéfalos, prontos para sofrer lavagem cerebral por parte das Big Techs. Somente ele e um bando de iluminados, com seu discernimento superior, teriam percebido a jogada. Esta é a própria definição de Teoria da Conspiração: um grande segredo (os dados foram usados sem conhecimento) guardado por um agente poderoso (as Big Techs) para atingir objetivos inconfessáveis (no caso, fazer pender a opinião pública para o lado ideológico das Big Techs).
Carmen Lúcia, em seu inesquecível discurso quando do assassinato do Marco Civil da Internet, ao menos deu protagonismo aos brasileiros, chamando-nos de “pequenos tiranos soberanos”. Foi mais respeitosa ao discernimento dos brasileiros do que o milionário ministro, que nos considera a todos massa de manobra descerebrada.
Nem vou aqui entrar no mérito da real capacidade de as redes sociais influenciarem o debate com seus algoritmos. Para quem tem curiosidade sobre o assunto, sugiro a leitura do livro do cientista de dados David Sumpton, Dominados pelos Números. A questão central é que temos uma das canetas mais poderosas da República dominada por uma teoria da conspiração.
O milionário ministro insiste em chamar de fake news a interpretação de que uma regulação das redes seria um ataque à liberdade de expressão. É óbvio que é, dada a largueza do conceito de “ataque à democracia” sob o qual cabe tudo. Já tivemos uma pequena amostra, sem regulação alguma, nas últimas eleições. Imagine o que vai acontecer com a lei a seu lado.
Os jornais não deram destaque ao discurso do milionário ministro, mas talvez devessem ter dado. Trata-se de um membro de uma Corte que não pensa duas vezes antes de atropelar prerrogativas do Legislativo, inventando leis de suas cacholas, como vimos no caso do Marco da Internet. Pensando bem, sob esse ponto de vista, o pedido do milionário ministro por uma regulação do Estado sobre as Big Techs parece desnecessário. Afinal, o Estado é ele.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
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da Redação