O Envelope da República de Bananas

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Havia tempos em que o Primeiro de Abril não precisava de internet, redes sociais e inteligência artificial para produzir suas peças. Bastava um envelope, um bilhete e uma boa dose de maldade.

Nas pequenas cidades do Nordeste, alguns desocupados entregavam a um pobre analfabeto um envelope fechado e umas moedas para que levasse a mensagem ao destinatário. Dentro havia apenas uma frase: "Mande este besta para qualquer lugar."

O primeiro que recebia abria o envelope, dava uma risada e dizia: — Não é para mim,  procure o Fulano. O Fulano lia e respondia: — Não é comigo. Vá falar com Beltrano  - que o encaminhava para o Sicrano que o enviava para o Fulano de novo, deixando o pobre coitado tonto e confuso ao passar o dia inteiro andando debaixo do sol, cruzando ruas, becos e praças, convencido de que estava cumprindo uma missão importante, sem perceber que era apenas o personagem principal de uma brincadeira cruel.

Décadas depois, olhando para certas repúblicas tropicais, alguém poderia imaginar que aquele velho envelope ganhou status institucional?

Numa distante República de Bananas, os três poderes resolveram brincar do mesmo jogo. Um envia para o outro, o outro devolve para o primeiro, o terceiro interfere no segundo, o segundo anula o primeiro, o primeiro contesta o terceiro, o terceiro suspende o segundo, todos, muito sérios, muito técnicos e muito solenes, explicando  que aquilo é absolutamente necessário para a preservação da ordem, da democracia, da legalidade, da constitucionalidade, da institucionalidade e de mais algumas palavras terminadas em "dade", que servem maravilhosamente para justificar qualquer imbecilidade.

Enquanto isso, o cidadão comum segue carregando o envelope, quando pensa ter chegado ao destino, descobre que houve um recurso, quando acredita que o recurso terminou, surge uma liminar, quando a liminar acaba, aparece uma interpretação, quando a interpretação é concluída, surge uma revisão e quando a revisão termina, alguém decide que tudo deve voltar ao início, como no velho bilhete do Primeiro de Abril.

A diferença é que, antigamente, a vítima percorria apenas as ruas da cidade e hoje percorre repartições, tribunais, gabinetes, comissões, ministérios e corredores infinitos onde especialistas discutem durante meses a melhor forma de desfazer aquilo que eles próprios fizeram.

No final, depois de anos de reuniões, discursos, audiências, notas oficiais e entrevistas coletivas, conclui-se que o processo estava errado desde o começo, anula-se tudo, volta-se à estaca zero e recomeça-se a caminhada.

E o povo, já sem saber se ri ou chora, percebe que o verdadeiro destinatário jamais existiu, talvez porque a mensagem nunca tenha sido destinada a ninguém, talvez porque o objetivo nunca tenha sido chegar a lugar algum ou talvez porque, na mais sofisticada versão da velha brincadeira nordestina, o bilhete continue contendo exatamente as mesmas palavras de antigamente: "Mande este besta para qualquer lugar."

A diferença é que agora o envelope é timbrado, os despachos possuem dezenas de páginas, os pareceres vêm recheados de latinismos, os participantes usam ternos caros em vez de sandálias de couro, mas, porém, todavia, contudo, senão, entretanto, o percurso continua o mesmo e o resultado também.

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