
A delação que pode explodir Brasília: A 2ª proposta

06/06/2026 às 07:48 Opinião

O documento desta vez, conforme noticiado pela CNN Brasil após consulta a delegados integrantes da equipe de investigação, contém mais nomes, mais informações, mais datas e anexos complementares em relação à versão anteriormente recusada. A PF avalia a proposta como “mais completa” e diz vê-la “com bons olhos”, entendendo que há muito a avançar no inquérito.
O que a segunda proposta traz de novo é justamente o que faltou na primeira: Profundidade.
O ponto de maior tensão institucional envolve o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Vorcaro afirmou na proposta que firmou um contrato de R$ 129 milhões com o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. O argumento do banqueiro é direto e incômodo: ele buscava “proximidade” com o magistrado. Ao mesmo tempo, sustenta que não houve troca de favores explícita.
Dados da Receita Federal confirmam que o Banco Master pagou ao escritório cerca de R$ 80 milhões no período, sendo R$ 40 milhões apenas em 2025. Em resposta, o escritório de Viviane Barci afirmou ter realizado 94 reuniões de trabalho com integrantes do banco, totalizando 267 horas, e produzido 36 pareceres jurídicos. Negou qualquer atuação em causas no STF.
Alexandre de Moraes não é investigado formalmente. Mas a magnitude dos valores e a declaração explícita de Vorcaro sobre o propósito do contrato tornam o assunto um nó difícil de desfazer. A primeira versão da delação chegou a mencionar um segundo contrato, de R$ 50 milhões, que nunca chegou a ser assinado, também com o escritório da esposa do ministro.
Entre os parlamentares, dois nomes concentram atenção — e nenhum dos dois entrou na delação por acaso.
No caso de Ciro Nogueira (PP-PI), a corporação havia descoberto, por conta própria, a partir da análise de um dos oito celulares apreendidos do banqueiro, o suposto pagamento de uma mesada de R$ 500 mil ao senador para que apresentasse propostas legislativas de interesse do Banco Master — em especial a elevação do limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. A medida, que não avançou no Congresso, poderia impulsionar fortemente a captação e os lucros do banco. Como Vorcaro havia omitido exatamente esses detalhes na primeira proposta, a PF não hesitou em recusá-la.
Nesta semana, uma nova apuração adicionou outro capítulo à relação entre os dois: Vorcaro teria bancado as férias de Ciro Nogueira e de sua companheira nos Alpes Franceses no ano passado, com hospedagem em hotel de luxo e refeições em restaurantes de alto padrão. O senador nega irregularidades.
A inclusão de Nogueira na nova proposta ocorreu, segundo fontes, após a PF localizar mensagens trocadas entre ele e o banqueiro. Entre as comunicações recuperadas, há um relato do próprio Vorcaro à sua namorada, em março de 2025, descrevendo uma reunião em que Hugo Motta e Ciro Nogueira chegaram à sua residência “para falar com Alexandre” — referência que investigadores interpretam como menção ao ministro Moraes. Há também registros de um evento em Nova York, no Carnegie Club, em maio de 2024: uma degustação de uísque que custou R$ 5 milhões e reuniu Nogueira, o então governador do Rio Cláudio Castro e deputados federais. O episódio foi citado pela PF em uma das fases da operação.
Já no caso de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a questão central é o filme “Dark Horse”, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mensagens vazadas à imprensa revelaram cobranças do senador a Vorcaro sobre os repasses para a produção. Flávio Bolsonaro admitiu a existência de um contrato no valor de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente pagos. A nova delação detalha todas essas transações. O senador confirmou publicamente ter se reunido com Vorcaro após a prisão do banqueiro — um encontro que, à luz das investigações, ganhou uma tonalidade diferente.
O rombo do caso Master foi de tal envergadura que Daniel Vorcaro se prontificou a devolver R$ 40 bilhões. Como a PF e a PGR consideraram o montante pequeno diante do desfalque promovido pelo banqueiro, Vorcaro, nesta segunda proposta, ofereceu um aumento de 50%, chegando à impressionante cifra de R$ 60 bilhões.
É importante destacar que, para o acordo ser homologado, Vorcaro precisará apresentar provas inéditas e substanciais. Não basta narrar o que a PF já descobriu por conta própria. Esse é o critério que separa uma colaboração genuína de uma simples manobra defensiva.
Além disso, justificar mesadas ou contratos milionários como meras “aproximações” com autoridades, como forma de defender aliados ou proteger investigados, não dará sustentação jurídica à proposta de delação premiada.
O desconforto em Brasília tem suas razões. A lista de pessoas potencialmente atingidas pela delação atravessa o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. A nova proposta foi entregue nos dias 1º e 3 de junho, acompanhada de um adendo com informações adicionais elaborado pela própria defesa. Uma reunião prevista para a quarta-feira (4) entre as partes foi cancelada porque os investigadores pediram mais tempo para analisar o material.
A indefinição sobre o conteúdo exato do documento, somada ao sigilo que ainda o envolve, alimenta um estado de apreensão que tende a se prolongar. Enquanto isso, os cem dispositivos eletrônicos e os milhares de documentos já apreendidos seguem sendo vasculhados. A investigação avança pelos próprios meios — com ou sem a cooperação do banqueiro da sala com frigobar e vista para o jardim.
O que se sabe até agora já é perturbador o suficiente para entender por que a segunda chance de Vorcaro interessa, assusta e preocupa tanta gente do alto escalão da República.
Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.
Tenho dito!!!.
Bady Elias Curi
Advogado fundador do Esc. Bady Curi Advocacia Empresarial, Prof. Mestre de Direito, ex-juiz do TRE/MG, escritor.












