O Grande Circo do Finck: quando a conta da arrogância política chega

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Depois de ignorar a Câmara por meses, governo corre atrás dos vereadores quando a corda já está no pescoço

Na política, existe uma regra tão antiga quanto a própria democracia: relacionamento não se constrói na emergência.

Mas é justamente isso que parece estar acontecendo nos bastidores da Prefeitura de Novo Hamburgo.

Durante boa parte do mandato, o governo Gustavo Finck cultivou a imagem de que poderia governar sem dialogar adequadamente com a Câmara de Vereadores. Parlamentares reclamaram de falta de espaço, ausência de interlocução política e dificuldade de acesso ao núcleo decisório do governo.

Agora, diante de sucessivas crises políticas e do aumento da pressão dentro e fora do Legislativo, a realidade parece outra.

O governo passou a buscar apoio parlamentar de forma intensa. Conversas, negociações, promessas de atenção a demandas e maior abertura para pautas defendidas pelos vereadores passaram a fazer parte da rotina dos bastidores.

O problema é que, em política, atenção tem valor. E tem memória.

Muitos vereadores questionam por que determinadas reivindicações só passaram a ser consideradas quando o governo começou a enfrentar dificuldades.

É como o sujeito que passa anos ignorando os amigos e, quando surge um problema sério, descobre que está sozinho.

A verdade é que articulação política não é um extintor de incêndio. É uma construção permanente.

O caso se torna ainda mais emblemático porque Finck chegou ao poder prometendo fazer diferente. Durante a campanha e no início da gestão, as críticas à ex-prefeita Fátima Daudt eram frequentes. O discurso era de renovação, eficiência e uma nova forma de governar.

Passado o entusiasmo inicial, a comparação começa a produzir um efeito desconfortável para o atual prefeito.

Mesmo quem fazia oposição à gestão anterior reconhece que havia maior previsibilidade política e menos conflitos permanentes entre Executivo e Legislativo.

Hoje, a sensação transmitida por muitos observadores é a de um governo que corre atrás dos fatos, reage às crises e tenta reconstruir pontes que nunca deveriam ter sido destruídas.

E é justamente aí que surge a metáfora que melhor resume o momento atual.

Finck parece um equilibrista caminhando sobre a corda bamba.

Só que a corda não apareceu agora.

Ela foi sendo esticada ao longo dos meses por decisões políticas, desgaste institucional e pela falta de construção de uma base sólida de apoio.

Quando um governo chega ao ponto de precisar correr atrás de aliados que ignorou durante tanto tempo, normalmente não estamos diante do início da festa.

Estamos assistindo aos momentos finais dela.

E o que deveria ser um projeto de transformação corre o risco de ficar marcado como um grande circo político, onde o espetáculo da improvisação acabou substituindo a arte de governar.

A pergunta que fica é simples:

Ainda existe tempo para reconstruir a confiança política perdida ou o público já começou a deixar a arquibancada?

Foto de Emílio Kerber Filho

Emílio Kerber Filho

Escritor e Estrategista Político. Criador do método Arquitetura Eleitoral:
https://emiliokerber.com.br/

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