
O mundo assustador da desinformação política em escala industrial

14/06/2026 às 21:07 Opinião

A Internet acelerou tudo, até a rapidez com que as pessoas são enganadas. Neste ano eleitoral, o assunto é extremamente importante. Um estudo feito pelo Instituto de Internet da Universidade de Oxford em 2020 descobriu atividades de tropas cibernéticas em 81 países, incluindo o Brasil. Governos, empresas de relações públicas e partidos políticos estão produzindo desinformação em escala industrial. Em mais de 93% dos países pesquisados o uso da desinformação é parte integral da comunicação política.
Há várias formas de se abusar da Internet para promover desinformação em escala.
1) Explorando Sistemas de “Recompensa Algorítmica”: As plataformas de mídia social valorizam postagens que geram alto engajamento. Ou seja: alguns políticos que compartilham informações erradas ou prejudiciais são recompensados. Isso porque os algoritmos registram mensagens que desencadeiam fortes respostas emocionais, como raiva, medo ou indignação, gerando um número maior de reações e visualizações.
2) Propaganda Computacional e Redes de “bots”: Atores políticos frequentemente empregam "tropas cibernéticas" que usam redes de bots automatizados e contas falsas. “Bots” são programas que executam tarefas repetitivas, como postar mensagens, promover “curtidas”, seguir usuários ou responder perguntas, em velocidades muito maiores do que seres humanos, mas dando a impressão que seriam pessoas. A manipulação de mídias sociais como ferramenta política está se espalhando. Isso quer dizer que é possível replicar rapidamente uma falácia e artificialmente transformá-la em uma tendência, através de compartilhamentos e retuítes instantâneos, dando a ilusão de amplo consenso público. Há firmas que se especializam em fazer isso e vendem esse serviço.
3) Desinformação participativa e influencers: a desinformação hoje é frequentemente "participativa", envolvendo colaborações entre atores políticos e influenciadores online. Existe uma crowdsourcing da realidade: políticos fazem parceria com influenciadores digitais ou os capacitam para atuarem como amplificadores de falácias.
O relacionamento e o diálogo entre as pessoas também foram profundamente transformados pela Internet. Como todas as invenções, há vantagens e desvantagens. Por um lado, acabaram as distâncias e barreiras geográficas. Há comunicação instantânea através de vídeos, áudio, textos, fotos. Existe conectividade global de baixo custo em tempo real. Pessoas que não se viam há décadas se conectaram através de mídias sociais. Há sites de pesquisa que facilitam imensamente o acesso à informação. As comunidades digitais contribuem para fortalecer conexões pessoais e profissionais.
Por outro lado, os contatos via tecnologias de informação e comunicação (TICs) impactaram profundamente a psicologia humana, modificando a forma como construímos nossa identidade, desenvolvemos relacionamentos e processamos emoções. Existe o “amor online”: todo mundo conhece algum casal que começou a namorar via internet. Existe também o “ódio online”: muitos já brigaram com alguém online por diferenças de opinião. Isso se deve ao efeito de “desinibição online”: a falta de contato visual e físico faz com que as pessoas ignorem barreiras sociais e se ataquem mais rapidamente via computador. Há ainda o efeito do “desabafo online”: assim como há pessoas que vão a um jogo de futebol para xingar o juiz, há outras que descarregam frustrações online de forma agressiva. Outros internautas praticam o “proselitismo online” que é o esforço (profissional ou amador) para converter pessoas a uma religião, ideologia, partido político ou causa, transformando-as em novos seguidores ou compradores. Isso virou até profissão: os “influencers” muitas vezes tiram proveito da massa desinformada para influenciar opiniões ou promover compras, ganhando muito dinheiro com isso.
Segundo a própria internet, há uma tabela aproximada de patrocínios de marcas. Os criadores digitais, funcionando como “agentes de publicidade” ganham em média US$ 0,02 (dois centavos de dólar) por seguidor em cada publicação. A renda esperada por seguidor varia de “Nano Influenciadores” (1.000 a 10.000 seguidores) ganhando de US$ 10 a US$ 500 por postagem, “Influenciadores Médios” (100.000 a 500.00 seguidores) ganhando de US$ 5.000 a US$ 15.000 por postagem, até “Mega Influenciadores” com mais de 1 milhão de seguidores chegando a ganhar de US$ 50.000 a US$ 150.000 por postagem.
Por curiosidade, descobri que Cristiano Ronaldo, o jogador de futebol português, é a pessoa mais seguida na internet com 940 milhões de seguidores; Lionel Messi tem mais de 600 milhões de seguidores, enquanto Selena Gomez, a mulher mais popular do Instagram, tem mais de 400 milhões de seguidores. Para esses, a fama veio muito antes da influência virtual e os contratos de publicidade são negociados caso a caso.
Nos casos mais sérios e caros, as empresas verificam a verdadeira influência de um influenciador combinando plataformas de auditoria baseadas em IA, análise manual de comentários e testes de desempenho. Para identificar o alcance inflado por “bots”, as marcas analisam a qualidade do engajamento, o histórico de crescimento de seguidores e a proporção de visualizações por seguidor para separar a atenção humana genuína das métricas automatizadas.
A Internet é confiável? Claro que não. Narrativas ficam mais importantes que fatos. Com a digitalização de informações, muitos veículos de comunicação descobriram que vender jornais através do jornaleiro é coisa do passado. Parece que a era do jornalismo sério, informativo, equilibrado, mostrando os vários lados de um fato, também é coisa do passado. Opinião virou notícia. Mas também virou renda. Assim como os influencers, a grande mídia já percebeu há muito tempo que vender opinião e políticos é mais lucrativo do que vender jornalismo sério e informação factual. Além disso, agências de publicidade recebem excelentes honorários para maximizar o impacto online. Conforme dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), o governo Lula já empenhou cerca de R$ 2 bilhões em contratos e aditivos de publicidade. Desse montante, somando os dados da Secom e de estatais, o governo gastou mais de R$ 876 milhões apenas com publicidade da Presidência em um único ano.
Quanto ao conteúdo, o ano eleitoral em um país dividido como o Brasil é um prato cheio para o uso de falácias por parte de políticos, da mídia e de agentes virtuais pagos para fazer propaganda de candidatos. Uma falácia é o uso de um raciocínio inválido para convencer as pessoas, dando a ilusão de ser verdadeiro. Compreender as falácias ajuda a avaliar argumentos, fortalecer seu pensamento crítico quando assistir a debates políticos e evitar retórica manipuladora em situações cotidianas.
Há vários tipos de falácia:
1) Ad Hominem: Atacar a pessoa que faz o argumento, e não o argumento em si.
2) Apelo à Autoridade: Argumentar que algo é verdadeiro apenas porque uma autoridade disse, sem evidências reais.
3) Generalização Apressada: Tirar conclusões gerais a partir de um exemplo muito pequeno ou isolado.
4) Falsa Causalidade ou Falácia do Consequente: Supor que, porque dois eventos ocorreram juntos, um causou o outro.
5) Falácia do Apostador: A ideia errada de que eventos passados sempre influenciam eventos futuros.
6) Argumento do Espantalho: Distorcer o argumento de um oponente para facilitar o ataque.
7) Falácia do Declive Escorregadio: Afirmar, sem provas, que uma ação insignificante levará inevitavelmente a uma cadeia de eventos desastrosos.
8) Falso Dilema: Apresentar um argumento como tendo apenas duas opções quando, na realidade, existem mais.
Todas essas falácias são usadas por políticos e influenciadores profissionais para convencerem os outros de que estariam sempre certos.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, determinou recentemente a criação de uma comissão permanente para supervisionar o uso responsável da inteligência artificial (IA) nas campanhas eleitorais.
Concluindo, não se deixe enrolar: desconfie de qualquer coisa que você lê na internet, não se influencie pelo número de curtidas sobre uma notícia, esteja atento aos vários tipos de falácia, desconfie de políticos que prometem o que não conseguem cumprir, entenda que nem sempre raciocínios que parecem lógicos são verdadeiros e que lindas frases de efeito quase sempre escondem a verdade.
Jonas Rabinovitch. Arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior em inovação/governo digital, gestão pública e desenvolvimento urbano da ONU em Nova York.
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