BBB 18 e a Vergonha alheia

Vai começar a próxima novela da Globo. Já até divulgaram os personagens.

Um tatuado goiano, dois tatuados paulistas, um tatuado paranaense, uma tatuada mineira, duas catarinenses peitudas, uma peituda de Rondônia.

Ha também um sírio, um libanês, uma coroa com pose de intelectual, um nerd, um modelo, duas empoderadas. Talvez sejam também tatuados, talvez também sejam peitudas - logo saberemos.

O enredo é o de menos: trata-se do décimo oitavo ‘rimeique’ da mesma trama envolvendo intrigas, alianças, bate-bocas, festas na piscina, sexo sob o edredom, banhos de sunga e biquíni mostrando o que normalmente se mostra em banhos sem sunga e sem biquíni, paixões avassaladoras, traições, choros, confissões, exibicionismo, um prêmio milionário e o merecido esquecimento.

O que conta, efetivamente, são os tatuados e as peitudas. Eles vão ostentar o corpo turbinado e coberto de garatujas, oferecer toscas lições de vida, se acasalar em sistema de rodízio e tentar revogar a lei que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo - tudo isso cercados de câmeras e microfones, para que nenhum momento de vergonha alheia seja desperdiçado.

A novela se resume a isso: carne inflada e carne rabiscada interagindo em nível epidérmico, para o deleite de uma espécie que já apreciou, ao longo da História, espetáculos parecidos envolvendo leões e cristãos, bruxas e fogueiras, escravos e açoites.

Se um entomologista alienígena desembarcasse neste planeta, certamente escolheria para espetar em sua coleção, representando os terráqueos, um tatuado e uma peituda.

Escreveria um pequeno tratado sobre as estranhas padronagens cutâneas dos machos (e de muitas fêmeas) e a hipertrofia mamária das fêmeas (e de muitos machos). Concluiria que os músculos peitorais são a parte mais importante da anatomia desses exóticos insetos sem asas nem antenas que dominam o terceiro planeta a contar do Sol.

Dirá também que havia um ritual anual em louvor desses seres arquetípicos, transmitido para todos os lares - para horror dos despeitados, para delícia dos voyeurs.

O nerd, a coroa e o apresentador de voz esganiçada não mereceriam nem uma notinha de rodapé. Falta-lhes o que caracteriza a espécie Homo sapiens neste ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezoito: a tatuagem e o silicone.

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Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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