No Brasil o exemplo vem de cima: O caso do presidente da CBF

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Recentemente um escândalo veio à tona. O Presidente da CBF teria usado dinheiro da entidade para bancar uma amante em Nova York enquanto sua esposa estaria no México, segundo informações divulgadas pelo jornalista Leo Dias.

De acordo com documentos apresentados na reportagem, Samir Xaud teria reembolsado quase R$ 60 mil a instituição após ser questionado sobre despesas relacionadas a hospedagem de luxo atribuídas à Confederação Brasileira de Futebol.

Outras despesas também foram expostas pelo jornalista e estariam ligadas ao dirigente, mas pagas pela instituição.

Será que isso realmente nos surpreende?

Quantas outras despesas semelhantes não terão sido pagas, ao longo dos anos, por diferentes instituições públicas, autarquias, empresas estatais e organismos financiados direta ou indiretamente pelo dinheiro do contribuinte?

O caso da Itaipu Binacional frequentemente aparece no centro de discussões envolvendo gastos elevados, publicidade institucional, benefícios, conselhos administrativos e cargos de confiança.

O mesmo ocorre em diversas outras estruturas do Estado brasileiro, onde milhões e até bilhões de reais circulam anualmente longe dos olhos da população.

O problema não está apenas nos valores.

O problema está na cultura.

Uma cultura que parece ter se consolidado ao longo das décadas, segundo a qual determinados ocupantes de cargos de poder passam a acreditar que os recursos sob sua administração lhes pertencem.

Viajam como querem. Gastam como querem. Contratam como querem.

E quando questionados, surge quase sempre a mesma resposta:

Sigilo. Sigilo bancário. Sigilo administrativo. Sigilo institucional. Sigilo estratégico. Sigilo por interesse público.

O que deveria ser exceção tornou-se regra.

O que deveria ser transparente tornou-se oculto.

E o cidadão, que financia toda essa estrutura através de impostos cada vez mais elevados, continua recebendo apenas fragmentos de informação cuidadosamente selecionados.

O mais preocupante é que o exemplo sempre vem de cima.

Quando dirigentes, autoridades, gestores e ocupantes dos mais altos cargos do país transmitem a impressão de que os recursos administrados podem ser utilizados sem o devido rigor, a mensagem que chega aos níveis inferiores da administração é devastadora.

A cultura da responsabilidade dá lugar à cultura da permissividade.

A prestação de contas é substituída pela conveniência.

E a transparência se torna um obstáculo para aqueles que preferem atuar longe do escrutínio público.

Nenhuma democracia forte se sustenta sobre segredos permanentes.

Nenhuma instituição séria deveria temer a fiscalização.

O debate recente envolvendo os hospitais da Bahia ilustra bem essa preocupação.

Ao estabelecer restrições ao acesso de parlamentares às unidades de saúde, a medida gerou questionamentos sobre até que ponto regras excessivas podem enfraquecer a fiscalização justamente onde a população mais precisa de transparência e prestação de contas.

Quem administra corretamente não precisa esconder despesas.

Não precisa temer auditorias.

Não precisa recorrer constantemente ao manto do sigilo para justificar aquilo que deveria ser público.

O Brasil precisa decidir se deseja construir uma cultura de transparência ou continuar convivendo com estruturas que prestam contas apenas quando pressionadas pela imprensa, pelos órgãos de controle ou pela indignação popular.

Porque, no final das contas, o dinheiro nunca pertence aos dirigentes.

O dinheiro pertence à sociedade.

E quem administra recursos coletivos tem o dever moral e legal de explicar, com clareza, cada centavo gasto.

Se o exemplo vem de cima, a responsabilidade também deveria vir.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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