Misantropia: a perda da confiança no ser humano

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A palavra misantropia vem sendo cada vez mais discutida — e, em certa medida, até mesmo incutida na mente das pessoas.

De origem grega, deriva de misos (ódio) e anthropos (ser humano). Na prática, designa uma profunda desconfiança, aversão ou desprezo pela humanidade em geral.

A era digital parece favorecer esse tipo de visão. As pessoas passaram a ser julgadas e condenadas não apenas por seus atos, mas também por simples aparições, fotografias ou associações com indivíduos considerados, justa ou injustamente, indignos.

Imagine que você esteja em uma multidão. Alguém registra uma fotografia em que você aparece ao lado de uma pessoa posteriormente acusada de um crime ou ligada a uma organização criminosa. A imagem é publicada. Pronto. Em poucos instantes, você passa a ser associado àquela pessoa, mesmo sem jamais tê-la conhecido. Explicar-se torna-se quase impossível. O julgamento antecede os fatos. E o cancelamento já aconteceu.

O nosso tempo tornou visível uma antiga discussão filosófica. Jean-Jacques Rousseau defendia que o ser humano nasce bom e é a sociedade que o corrompe. Talvez essa tese encontre, hoje, novos argumentos. Mas também somos levados a perguntar: será que o contrário é totalmente impossível? Ou será que a natureza humana é mais complexa do que qualquer resposta simplista?

Seja qual for a conclusão, um fato parece evidente: a confiança no ser humano está profundamente abalada.

Essa desconfiança pode surgir como uma conclusão filosófica, como uma defesa psicológica ou como resposta a experiências dolorosas. O grande desafio é distinguir uma avaliação prudente das pessoas de uma generalização que impede reconhecer que, na humanidade, convivem tanto o bem quanto o mal.

Do ponto de vista psicológico, experiências negativas muito marcantes podem levar uma pessoa a atribuir a toda a humanidade características observadas apenas em alguns indivíduos. Essa generalização funciona, muitas vezes, como um mecanismo de proteção contra novas decepções. Entretanto, o mesmo mecanismo que protege também limita a possibilidade de construir vínculos saudáveis.

Mas como construir vínculos seguros em um campo minado?

Como acreditar nas pessoas quando tantas delas, marcadas por suas próprias experiências de abandono, traição, humilhação ou violência, passam a enxergar toda a humanidade através das lentes da desconfiança?

Para compreender esse fenômeno, é preciso voltar às primeiras relações humanas. É na infância que se formam os vínculos de apego e as bases da confiança — estruturas que continuam sendo moldadas pelas experiências ao longo da vida. Sob a perspectiva da neurociência, poderíamos dizer que essa construção resulta da interação entre genética e epigenética, na qual predisposições biológicas dialogam continuamente com as experiências vividas.

Quando alguém acumula sucessivas vivências de abandono, rejeição, humilhação ou violência, pode desenvolver um modelo mental no qual o ser humano passa a ser percebido como essencialmente perigoso ou indigno de confiança.

Em outras palavras: se justamente aqueles que deveriam amar, cuidar e proteger foram fonte de sofrimento, a base sobre a qual se constrói a confiança torna-se profundamente fragilizada.

É por isso que tenho repetido uma reflexão:

As mágoas fundadas na infância encontram, nas mídias sociais, um importante canal para desaguar. Mas, frequentemente, os alvos são bodes expiatórios — ou seja, carregam a culpa que não lhes pertence.

Talvez este seja um dos grandes desafios do nosso tempo: impedir que dores individuais se transformem em condenações coletivas, preservando a capacidade de discernir pessoas, fatos e contextos, sem perder a esperança na humanidade.

A esperança é a fé no futuro. Não haverá futuro sem a confiança na humanidade.

Foto de Bernadete Freire Campos

Bernadete Freire Campos

Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.

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