Jaques Wagner: o novo José Dirceu?

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A política brasileira possui uma característica curiosa. Os personagens mudam. Os escândalos mudam. Os governos mudam. Mas determinados roteiros parecem insistir em voltar ao palco.

Há pouco mais de vinte anos, durante a crise do Mensalão, o então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, tornou-se o principal alvo político de um dos maiores escândalos da história recente do país.

Enquanto as investigações avançavam, uma narrativa começou a ganhar força.

Dirceu teria assumido o papel de anteparo político destinado a impedir que as consequências da crise atingissem diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O resultado é conhecido.

José Dirceu foi condenado, perdeu direitos políticos e passou a simbolizar, para muitos observadores, o homem que absorveu o impacto que poderia atingir o núcleo mais elevado do poder.

Décadas depois, um novo personagem surge no centro de uma investigação de grande repercussão.

O senador Jaques Wagner, um dos mais próximos aliados políticos de Lula, passou a ocupar espaço crescente no noticiário em razão das apurações relacionadas ao chamado caso Master.

As circunstâncias são diferentes. Os fatos investigados são diferentes. Mas a dinâmica política desperta inevitáveis comparações.

Mais uma vez, um aliado histórico aparece no centro das atenções enquanto o presidente permanece formalmente distante das investigações.

Mais uma vez, surge a dúvida que acompanha praticamente todos os grandes escândalos políticos brasileiros:

Até onde vão as responsabilidades individuais e até onde vai a proteção política?

A pergunta ganha relevância porque Lula e Jaques Wagner mantêm uma das relações políticas mais próximas dentro do Partido dos Trabalhadores.

Durante décadas, Wagner foi tratado como um dos homens de maior confiança do presidente.

Não por acaso, ocupa posição estratégica dentro da estrutura governista.

Diante desse cenário, outra lembrança histórica reaparece.

Durante o Mensalão, Lula adotou a célebre linha de defesa segundo a qual não teria conhecimento das irregularidades que vinham sendo investigadas.

A frase "não sabia de nada" acabou entrando para o vocabulário político nacional.

Agora, diante do avanço das investigações envolvendo aliados próximos, muitos observadores voltam a se perguntar se o país assistirá novamente ao mesmo roteiro.

A história está se repetindo?

Ou as comparações são apenas fruto da memória política de um país acostumado a ver os mesmos personagens retornarem aos mesmos papéis?

Ainda é cedo para respostas definitivas.

Investigações exigem provas, contraditório e respeito ao devido processo legal.

Mas a política tem uma peculiaridade.

Antes mesmo das sentenças judiciais, ela costuma produzir julgamentos históricos.

E é justamente por isso que a pergunta permanece no ar: Jaques Wagner será lembrado como apenas mais um investigado ou como o novo escudo político de um sistema que o Brasil já viu funcionar antes?

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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