Aurélio Schommer

Membro do Conselho Curador na Fundação Cultural do Estado da Bahia - Funceb e Membro Titular no Conselho Estadual de Cultura da Bahia.

Amigo de esquerda, vamos ter uma conversa pessoal?

Já fui de esquerda, como você, nos anos 1980. Naquele tempo, tinha orgulho de minha posição. Meus líderes de então eram pessoas que pareciam ter ideais elevados, se indignavam contra a corrupção, contra o patrimonialismo. Nenhum deles havia enriquecido com a política.

Eu era jovem, queria mudar o mundo, e os líderes de esquerda me exibiam Cuba, o lugar em que, mesmo ausentes riquezas naturais, ninguém morria de fome nem em fila de hospital público.

Até o dia em que comecei a me perguntar porque um muro impedia quem vivia num regime de esquerda de passar para o lado dominado pela democracia liberal de direita, o muro de Berlim.

Ainda assim, no Brasil, mantive simpatia pela esquerda local, pois via o que identificava como "direita" a se locupletar com as posições públicas de poder, assaltar o Estado, o mesmo Estado que negava serviços básicos aos mais humildes. E via a esquerda a exigir justiça.

Nesse meio tempo, fui lendo, me informando, descobrindo que a História contada por meu professor de esquerda era não apenas falsa, mas propositadamente manipulada. Descobri que os ladrões do dinheiro público não eram de "direita" ou de "esquerda", apenas parasitas.

Foi já com ceticismo que assisti ao desenrolar dos governos Lula e Dilma. Torci, ainda assim, para que proporcionassem, pela via da educação, a equalização das oportunidades, para que os muitos pobres com talento e esforço que conhecia pudessem ter mais oportunidades. Torci também para que, pela via das leis tributárias, os impostos passassem a taxar mais quem ganha mais, menos quem ganha menos.

Assisti a você, amigo, "na alegria de se abraçar"*, "a favor do que é direito, da decência que restou", cantar de comício em comício "Lula lá, brilha uma estrela". Foi lindo, não foi? Mas para que era mesmo?

Foram 13 anos e cinco meses, ou seja, 156 meses ou 4.898 dias de governo "a favor de um povo pobre, mas nobre, trabalhador". Foi uma transformação, não foi?

Foi, sim. A carga tributária subiu, mas não aquela que cobra mais de quem tem mais, essa não subiu nem um pouquinho. Todo aumento de impostos se deu sobre consumo, penalizando os mais pobres, que comprometem percentual maior de sua renda com consumo.

Foi, sim. A educação, que já era de má qualidade, piorou, o Brasil fazendo cada vez mais feio em comparações internacionais e o pobre com diploma, pois diplomas foram dados aos milhões, mas sem ter o que fazer com ele, seja por deficiência do que aprendera, seja pela recessão que acabou por cobrar a fatura da farra de crédito dos tempos iniciais de "governo popular".

No Brasil da "estrela da esperança", Dilma deu centenas de bilhões de reais, mais do que o orçamento somado do Bolsa Família desde sua criação, em renúncia fiscal a empresas, cavando um buraco nas contas públicas que compromete a capacidade do Estado brasileiro de prover melhores serviços por décadas.

O PT, por sua vez, partido que eu admirava nos anos 1980 também porque contestava a falta de liberdade nos regimes socialistas de então, uma vez dono do Estado, foi cúmplice da quebra da Petrobras, de rombos em fundos de pensão, muitos "companheiros" enriquecidos pessoalmente com a grossa corrupção que tanto combatiam quando na oposição. Pior: tornou-se aliado e defensor das piores tiranias do planeta, como o chavismo venezuelano.

Nesses anos todos, eu aprendi muito sobre hipocrisia, sobre limites da ação do Estado, sobre o fracasso necessário das utopias, sobre valores, sobre princípios, sobre os pilares necessários à liberdade e ao desenvolvimento econômico. Mas aprendi porque só aprende quem se dispõe a aprender, não fica abraçado a uma bandeira só porque um dia ela representou seu sonho mais bonito.

Fico penalizado ao ver você, que cantou em 2002 "é o desejo dessa gente querer um Brasil mais decente, ter direito à esperança e uma vida diferente", você que antes pintara o rosto para exigir punição aos malfeitos, ver você fechar os olhos para as evidências e exigir que um criminoso do colarinho branco seja inocentado não porque seja inocente, mas porque não restou mais ninguém com alguma popularidade para pedir ao "povo pobre, mas nobre, trabalhador" que se permita ser enganado mais uma vez.

Admiro seus ideais de esquerda se sinceros. Admiro porque já os tive, queria uma vida melhor para todos, um mundo de gente honesta e com acesso a uma existência digna, com oportunidades para crescer pessoalmente. Ainda quero, embora agora saiba que não é pela esquerda que se chega. Agora, se seus ideais são compatíveis com "não condenem Lula por seus crimes" ou "revoguem a lei da ficha limpa", não lhe restam ideais sinceros, apenas saudades do que um dia fora uma esperança legítima.

Dá tempo de se dar conta de que o mundo não mudou, mas seus líderes, sim. É só você querer e amanhã assim será. Bote fé e não diga Lula.

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*trechos do jingle oficial da campanha Lula 2002.

Aurélio Schommer

Membro do Conselho Curador na Fundação Cultural do Estado da Bahia - Funceb e Membro Titular no Conselho Estadual de Cultura da Bahia.

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