Parlamentar do PT é preso por envolvimento com o PCC
25/06/2026 às 10:51 Direito e Justiça
O vereador paulistano Senival Pereira de Moura (PT), atualmente em seu sexto mandato na Câmara Municipal de São Paulo, foi preso nesta quinta-feira (24) durante a Operação Última Parada, ação conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). As autoridades o apontam como um dos principais investigados em um suposto esquema de lavagem de dinheiro ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC).
De acordo com as apurações, a empresa Transunião Transportes S.A. teria sido utilizada para ocultar patrimônio e movimentar recursos financeiros supostamente vinculados à facção criminosa. A investigação sustenta que o parlamentar mantinha influência direta sobre a companhia, mesmo sem figurar formalmente em sua estrutura societária.
Atualmente, Senival ocupa o cargo de primeiro-secretário da Mesa Diretora da Câmara Municipal e também preside a Comissão de Trânsito, Transporte e Atividade Econômica, responsável pela análise e fiscalização de políticas públicas relacionadas à mobilidade urbana na capital paulista.
Segundo os investigadores, a ligação do vereador com o setor de transportes remonta à década de 1970. Naquele período, ele teria operado linhas clandestinas entre os bairros de Guaianases e Itaim Paulista utilizando veículos Kombi. Já sua ascensão política teria ocorrido anos mais tarde, durante o processo de regularização do transporte alternativo na Zona Leste, quando passou a atuar ao lado dos chamados “perueiros”.
Ao longo da carreira política, Senival consolidou-se como representante dos antigos operadores de transporte alternativo. Durante a gestão da então prefeita Marta Suplicy, quando ocorreu a regularização de parte desse sistema, ele participou de entidades voltadas à defesa da categoria. Posteriormente, com as mudanças implementadas na licitação do transporte público durante a administração de Fernando Haddad, muitos desses antigos cooperados transformaram-se em empresários do setor.
O parlamentar também é irmão de Luiz Moura, político que já foi alvo de investigações quando exercia mandato como deputado estadual. Na esfera municipal, Senival construiu forte influência política principalmente nos bairros de Itaquera e Artur Alvim, regiões que se tornaram seus principais redutos eleitorais.
Entre as iniciativas vinculadas ao seu mandato, destacam-se emendas parlamentares destinadas à modernização de campos esportivos de várzea, permitindo a substituição de gramados de terra por gramados sintéticos em clubes municipais da Zona Leste. Além disso, o vereador manteve participação constante em comissões ligadas à área de transportes ao longo de diferentes legislaturas.
As investigações atuais têm origem no assassinato de Adauto Soares Jorge, ex-diretor financeiro da Transunião, morto a tiros em março de 2020 no estacionamento de uma padaria localizada no bairro do Lajeado, na Zona Leste da capital.
Já em 2022, a Polícia Civil apontava que Adauto exerceria a função de "laranja" dentro da empresa, atuando como representante de interesses atribuídos ao vereador na administração da companhia. Naquele mesmo ano, dois suspeitos foram presos e 13 ônibus da Transunião acabaram apreendidos. Na ocasião, Senival negou qualquer envolvimento e declarou estar à disposição da Justiça.
Segundo a linha investigativa apresentada pelas autoridades, Jair Ramos de Freitas, conhecido como "Cachorrão", teria sido o responsável pelos disparos que mataram Adauto. No dia do crime, a vítima foi levada ao local por Devanil Souza Nascimento, apelidado de "Sapo", identificado pelos investigadores como motorista de confiança do vereador e preso durante a operação realizada em 2022.
O Ministério Público sustenta que o homicídio teria sido motivado por uma suposta ruptura de confiança envolvendo recursos financeiros. Conforme a investigação, integrantes da facção teriam concluído que Adauto estaria desviando valores da Transunião para abastecer um suposto caixa dois destinado à campanha de reeleição de Senival Moura em 2020, reduzindo os repasses que deveriam ser direcionados ao PCC.
A partir dessa situação, Leonel Martins, conhecido como "Cabeça Branca", teria sido encarregado de conduzir um "debate" — termo utilizado para designar o chamado tribunal do crime — que culminaria na determinação para a execução da vítima.
Quatro anos depois, uma nova fase da investigação conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e pelo Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) afirma ter encontrado novos elementos em aparelhos celulares apreendidos durante as diligências.
Embora o nome de Senival não conste formalmente nos contratos sociais da empresa, os investigadores afirmam que mensagens analisadas demonstrariam sua influência em decisões financeiras relevantes. Entre os diálogos examinados estariam referências a repasses expressivos de dinheiro e pagamentos periódicos de R$ 70 mil para "acertar os cara", operações que, segundo os autos, dependeriam de autorização prévia ou intervenção do parlamentar.
As autoridades também afirmam que, nas conversas interceptadas e analisadas, Senival era frequentemente mencionado pelos apelidos de "presidente", "véio", "velhinho" ou simplesmente "vereador".
Documentos e planilhas internas apreendidos durante a investigação apontariam ainda que o parlamentar aparecia como "cooperado oficial" de ao menos 13 veículos da frota da empresa. Conforme a interpretação dos investigadores, essa nomenclatura era utilizada para identificar os verdadeiros beneficiários econômicos dos ônibus, mesmo quando os registros formais estavam em nome de terceiros ou da própria companhia.
Segundo os autos, os rendimentos gerados por esses veículos seriam direcionados ao vereador de maneira sistemática.
As investigações também descrevem a utilização de familiares e pessoas próximas para ocultar patrimônio e interesses econômicos. Entre os nomes mencionados estão sua esposa, Maria de Lourdes Andrade de Moura, seus filhos Ítalo e Vitor Andrade de Moura, além de seu irmão Rubens Pereira de Moura.
Além do núcleo familiar, o assessor parlamentar Adão Lino dos Santos e Devanil Sousa Nascimento, o "Sapo", aparecem nas investigações como operadores que teriam contribuído para manter o controle efetivo do vereador sobre a empresa e suas subsidiárias.
Relatórios de inteligência financeira citados pelas autoridades apontam movimentações de aproximadamente R$ 4,39 milhões realizadas por Senival entre 2019 e 2022. Conforme os investigadores, haveria uma diferença superior a R$ 2,4 milhões entre os valores movimentados e os rendimentos oficialmente declarados pelo parlamentar.
Os autos também fazem referência à posse de imóveis considerados de alto padrão, incluindo um apartamento localizado na Vila Madalena, na Zona Oeste de São Paulo, e uma propriedade rural situada em Extrema, no sul de Minas Gerais.
Os documentos produzidos pelo Ministério Público afirmam ainda que, após a descoberta dos supostos desvios financeiros, tanto Adauto quanto Senival teriam sido "condenados à morte" pelo PCC em julgamento realizado pelo chamado tribunal do crime. Entretanto, segundo a investigação, o vereador teria sido posteriormente perdoado em razão de sua influência política e de sua capacidade financeira para compensar parte dos prejuízos atribuídos pela facção.
Como condição para esse suposto perdão, os investigadores afirmam que Senival teria concordado com a execução de Adauto, apontado como seu representante dentro da empresa. O ex-diretor financeiro foi assassinado em março de 2020, em uma emboscada na Zona Leste da capital paulista.
As conclusões divulgadas pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil refletem a atual linha investigativa das autoridades. Todos os fatos apresentados ainda deverão ser analisados durante o processo judicial, garantindo-se o contraditório e a ampla defesa aos envolvidos.
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da Redação