O erro de Michelle: Quando o pragmatismo político dos outros vira pecado (veja o vídeo)
25/06/2026 às 15:10 Opinião
A recente manifestação de Michelle Bolsonaro contra uma possível aliança entre o PL e Ciro Gomes no Ceará recolocou no centro do debate um tema que costuma ser decisivo na política: a coerência.
Ao defender que o partido não deveria abrir mão de seus princípios em nome de acordos eleitorais, Michelle apresentou um argumento que, em tese, vale para qualquer lugar do país. Afinal, se o pragmatismo político representa uma renúncia aos valores defendidos por um grupo, o critério deveria ser aplicado de forma uniforme.
É justamente aí que surge a principal questão.
No Distrito Federal, Michelle Bolsonaro mantém apoio político à vice-governadora Celina Leão. Celina foi investigada na Operação Drácon, respondeu ao processo e acabou absolvida pela Justiça. O ponto, portanto, não é reabrir um caso encerrado nem questionar uma decisão judicial.
A discussão é outra.
Se a crítica é dirigida ao pragmatismo político, por que esse raciocínio seria válido no Ceará, mas não despertaria o mesmo debate no Distrito Federal?
Essa aparente diferença de critérios alimenta uma percepção frequente na política brasileira: a de que determinadas alianças são condenadas quando favorecem adversários, mas relativizadas quando fortalecem aliados.
E esse tipo de percepção tem um custo.
O eleitor costuma compreender divergências estratégicas e até mudanças de posição. O que gera desgaste é a impressão de que existe uma régua para avaliar os outros e outra para avaliar os próprios aliados.
Na política, coerência não significa ausência de alianças. Significa explicar por que uma composição é aceitável em um caso e inaceitável em outro, utilizando critérios objetivos e consistentes.
Quando essa explicação não convence, abre-se espaço para uma crítica inevitável: talvez o verdadeiro debate já não seja sobre princípios, mas sobre conveniência política.
E, para quem faz da coerência uma bandeira, esse pode ser o erro mais difícil de justificar.
Emílio Kerber Filho
Escritor e Estrategista Político. Criador do método Arquitetura Eleitoral:
https://emiliokerber.com.br/
https://emiliokerber.com.br/