Quando a praça pública decide quem merece ser apedrejada
27/06/2026 às 17:50 Opinião
Não é preciso concordar com Michelle Bolsonaro para observar algo inquietante no que aconteceu após seu recente desabafo público.
O que chama atenção não é a divergência de opiniões. Divergências são naturais em qualquer sociedade livre. O que impressiona é a rapidez com que uma manifestação emocional foi transformada em prova de caráter, ambição, inveja, falsidade, manipulação e até conspiração.
Em poucas horas, milhares de pessoas passaram a explicar não o que Michelle disse, mas quem ela supostamente é. Não se discutiu o conteúdo. Discutiu-se a pessoa.
A cena lembra a célebre personagem Geni, da música de Chico Buarque. Em determinado momento, pouco importa o que ela faça. A multidão já decidiu seu papel. Ela existe para ser alvo. Existe para receber as pedras.
“Joga pedra na Geni.”
A trajetória de Geni revela o quanto a multidão pode ser volúvel. Ontem era necessária, hoje é condenada; amanhã pode voltar a ser indispensável.
O perigo está em transformar pessoas em símbolos descartáveis, exaltando-as quando servem aos nossos interesses e apedrejando-as quando nos decepcionam. Nenhuma sociedade amadurece enquanto tratar seres humanos dessa forma.
O mais curioso é que muitas dessas pedras vêm justamente de outras mulheres — e também de pessoas que, em tantos contextos, defendem a liberdade de expressão, a autonomia emocional e o respeito à dignidade feminina.
A crítica deixa de ser sobre comportamentos e passa a ser sobre intenções ocultas. Não basta discordar do que foi dito. É preciso afirmar que houve inveja, cálculo, ambição ou traição.
Mas como sabemos disso?
Desde quando emoções humanas passaram a ser tratadas exclusivamente como estratégias?
Talvez estejamos diante de um fenômeno ainda mais preocupante: a desumanização. Ela acontece quando uma pessoa deixa de ser vista em sua complexidade e passa a ser reduzida a um único rótulo. A partir daí, tudo o que faz passa a ser interpretado pela mesma lente: se fala, manipula; se silencia, esconde; se chora, dramatiza; se sorri, dissimula. Aos poucos, perde-se a capacidade de enxergar o ser humano por trás da narrativa.
O linchamento moral possui uma característica curiosa. Ele não exige provas definitivas. Basta que milhares de pessoas passem a repetir a mesma interpretação até que ela pareça uma verdade incontestável. Nesse momento, a pessoa deixa de existir como indivíduo e passa a representar apenas aquilo que a multidão decidiu que ela simboliza.
Talvez este seja um dos sinais mais preocupantes do nosso tempo. Já não acreditamos que alguém possa simplesmente estar triste, frustrado, decepcionado ou magoado. Tudo precisa ser interpretado como movimento tático dentro de uma guerra permanente de narrativas.
O paradoxo é evidente. Muitas pessoas acusam Michelle de prejudicar um grupo político por ter falado. Ao mesmo tempo, participam de um linchamento coletivo que produz um dano muito maior à imagem de uma mulher do que o próprio desabafo que criticam.
Sentimentos não são impróprios; impróprios podem ser os comportamentos. E comportamentos podem mudar.
Talvez seja hora de separar a pessoa de seus atos. Discordar é legítimo. Desumanizar, não.
Quando uma mulher é reduzida ao pior julgamento que fazem dela, todas as mulheres perdem um pouco da liberdade de serem humanas.
Bernadete Freire Campos
Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.