Quando o crime organizado passa a administrar o país: O problema já não é apenas o garimpo ilegal. É a perda do controle do Estado
30/06/2026 às 12:40 Opinião
Há notícias que preocupam. Outras indignam. Mas algumas deveriam provocar um sentimento ainda mais profundo: INQUIETAÇÃO.
Segundo investigações da Polícia Federal, o Comando Vermelho assumiu o controle de áreas de garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso.
Não estamos falando apenas de criminosos escondidos na floresta.
Estamos falando de uma organização que, segundo as investigações, passou a controlar a exploração de ouro, oferecer proteção armada, administrar áreas de mineração clandestina e utilizar o ouro extraído para financiar o tráfico internacional de drogas e a compra de armamentos.
A pergunta inevitável é simples: Como chegamos a esse ponto?
O mais preocupante não é descobrir que uma facção criminosa deseja controlar riquezas naturais.
Organizações criminosas sempre procurarão novas fontes de financiamento.
O verdadeiro problema surge quando elas conseguem fazê-lo dentro do território brasileiro.
A reportagem revela uma estrutura impressionante.
Comércio. Bares. Farmácia. Mais de mil pontos de garimpo ilegal identificados. Milhares de pessoas circulando pela região.
Uma verdadeira estrutura paralela instalada em uma terra indígena oficialmente protegida.
É impossível não fazer outra pergunta: Onde estava o Estado enquanto essa estrutura crescia? IBAMA? ICMBIOS?
Ninguém espera que o crime deixe de existir.
Mas espera-se que o Estado tenha capacidade de impedir que ele se transforme em administrador de território nacional.
Quando uma facção passa a controlar a circulação de pessoas, a exploração econômica, a segurança armada e até a logística de uma região, o problema deixa de ser apenas policial.
Passa a ser institucional.
Não se trata apenas de proteger uma terra indígena. Nem apenas de combater o garimpo ilegal. Trata-se de impedir que organizações criminosas construam verdadeiros enclaves onde a autoridade pública deixa de ser a principal referência.
As operações realizadas pelas forças federais merecem reconhecimento. As prisões efetuadas demonstram que existe reação do Estado.
Mas a própria existência dessa estrutura criminosa revela que o enfrentamento precisa ir muito além das grandes operações.
O combate ao crime organizado não pode ser apenas reativo. Precisa ser permanente.
Nessa hora a falta de recursos financeiros e estratégicos das Forças Armadas acabam demonstrando quais as intenções do governo federal.
Enquanto uma facção consegue transformar ouro em moeda de troca para drogas e armas, ela amplia sua capacidade financeira, fortalece seu poder bélico e amplia sua influência sobre outras atividades criminosas.
Essa realidade ameaça indígenas, moradores da região, servidores públicos...
E ameaça o próprio Estado brasileiro.
Mas há outro aspecto que merece reflexão.
Enquanto organizações criminosas conseguem instalar verdadeiras cidades clandestinas dentro da Amazônia, controlar a exploração ilegal de ouro e utilizá-lo para financiar o tráfico internacional de drogas e armas, em outras regiões da Amazônia produtores rurais relatam operações de fiscalização ambiental que resultam na destruição de benfeitorias, retirada de rebanhos e perda do sustento de famílias inteiras.
Em muitos desses casos, permanecem dúvidas levantadas pela sociedade sobre o destino dos animais apreendidos, a transparência dos procedimentos adotados e a efetiva garantia do direito de defesa daqueles atingidos.
Esse contraste provoca uma pergunta inevitável.
De que lado o Estado está? O Estado está conseguindo estabelecer corretamente suas prioridades?
O Estado não pode ser implacável com quem vive do trabalho e, ao mesmo tempo, permitir que organizações criminosas levem anos consolidando estruturas milionárias dentro do território nacional.
A verdadeira pergunta é outra.
Quanto tempo foi necessário para que esse domínio se consolidasse até exigir uma megaoperação para ser enfrentado? Porque apenas agora está havendo atuação policial?
Essa resposta interessa a todos os brasileiros. Porque a soberania nacional não significa apenas proteger nossas fronteiras. Significa garantir que, dentro delas, quem exerce autoridade é o Estado brasileiro.
Aos poucos o crime organizado e a violência urbana vão tomando conta do país.
Jayme Rizolli
Jornalista.