Sindicatos fazem anúncio caríssimo pelo fim da escala 6x1 mas cometem 5 erros cruciais

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Anúncio de página inteira, patrocinada pelos sindicatos, faz pressão para que o senador Davi Alcolumbre coloque em pauta a votação do fim da escala 6x1. Não sai barato um anúncio desses, o que demonstra que os recursos tungados dos aposentados do INSS estão sendo bem gastos.

Do ponto de vista econômico, o tema é sumarizado no quadro em destaque. 

Vejamos.

1) “Aumenta produtividade”: Bem, definimos produtividade pela capacidade de criar mais valor usando menos recursos. Esse valor, via de regra, é medido em unidades monetárias. Ao reduzir a jornada sem reduzir salários, temos o justo oposto da definição de aumento de produtividade, dado que os recursos (salários) serão os mesmos, mas a produção será quase 10% menor, com a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas. Para que a produtividade permanecesse ao menos no mesmo nível, a caixa de supermercado deveria passar as compras com uma velocidade 10% maior. Para aumentar a produtividade, a velocidade deveria aumentar acima desses 10%. Porque isso aconteceria, dado que se trata do mesmo material humano? Voltaremos a este ponto no último item.

2) “Incentiva a inovação”. Difícil de entender qual o nexo entre redução de jornada e inovação. Talvez os sindicatos estejam se referindo à criatividade dos empresários para extrair 10% a mais de seus empregados só para manter tudo como está. Ou talvez se refiram ao avanço da automação, o que pode ser um efeito colateral dessa nova lei, mas que não se coaduna com os objetivos dos sindicatos. Também voltaremos a este ponto no último item.

3) “Qualifica o tempo de trabalho”. Essa “qualificação” opõe-se à famigerada “precarização” das condições de trabalho. Ocorre que “empregos de qualidade”, como gostam de dizer, só estão disponíveis para “empregados qualificados”. A qualidade de um emprego não sobe por decreto, ela depende da qualificação do empregado. Um trabalhador semi-analfabeto terá à disposição somente empregos menos qualificados. E a redução da jornada não mudará essa realidade no longo prazo.

4) “Reduz acidentes e doenças ocupacionais”. Isso aqui é um chute. Ao contrário da redução da produtividade, que é uma conclusão matemática, a redução de acidentes de trabalho necessita de comprovação empírica. Eu me daria por satisfeito com um estudo mostrando que os acidentes ocorrem preponderante nas últimas 4 horas de trabalho na semana. Quanto às doenças ocupacionais, as estatísticas do INSS de pedidos de afastamento demonstrarão, no futuro, se a tese se sustenta.

5) “Gera novos empregos”. Este último ponto contradiz os dois primeiros. Para aumentar a produtividade, seria necessário que os atuais empregados produzissem acima de 10% de sua produção atual. Isso, obviamente, supõe a não contratação de novos empregados. E a “inovação” do segundo item é justamente a busca por fazer mais com menos, inclusive com menos empregados.

A luta (como gostam de dizer) dos sindicatos pela redução da jornada sem mexer nos salários é legítima. No entanto, poderiam nos poupar de seus argumentos pseudo-econômicos, que só demonstram a sua ignorância na matéria.

Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.

da Redação
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