O que os escombros da Venezuela escondem

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Às 18h04 de 24 de junho, a terra tremeu perto de San Felipe, no centro-norte da Venezuela. Trinta e nove segundos depois, tremeu de novo, mais forte e mais perto da costa. O primeiro abalo, de magnitude 7,2, já bastaria para entrar para a história como o maior terremoto do país em mais de um século. O segundo, de 7,5, fez o resto: prédios que resistiram ao primeiro tremor não resistiram ao segundo. Quem pagou o preço mais alto foi o litoral de La Guaira, colado a Caracas.

Seis dias depois, o país ainda não sabia contar os próprios mortos.

O presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, elevou o balanço oficial para 1.943 mortos e 10.571 feridos, números que o próprio governo admite que vão continuar subindo. Tom Fletcher, chefe de assuntos humanitários da ONU, disse em 26 de junho que mais de 50 mil pessoas seguiam desaparecidas. O Serviço Geológico dos Estados Unidos estima entre 10 mil e 100 mil mortos ao final da contagem. São estimativas, não certezas. É a incerteza, tanto quanto a tragédia, que define os dias seguintes ao tremor na Venezuela.

UM RESGATE QUE O PRÓPRIO ESTADO DIFICULTOU

Enquanto vizinhos cavavam escombros com as próprias mãos, o obstáculo mais consistente ao socorro não foi geológico. Foi burocrático: o reflexo de um regime treinado, há mais de duas décadas, a controlar antes de socorrer. Na noite de dos terremotos, o governo restringiu o acesso a La Guaira apenas a "pessoal autorizado". O ministro Diosdado Cabello justificou a medida citando a necessidade de liberar vias para ambulâncias, sem nunca detalhar as "razões sanitárias" que também alegou, e sem explicar por que isso exigia barrar moradores que já escavavam os próprios prédios com as mãos.

Não é a primeira vez que Caracas trata ajuda humanitária como ameaça política: em 2019, o mesmo aparato bloqueou com contêineres uma ponte na fronteira colombiana para impedir a entrada de comida e remédios doados. A lógica não mudou: o controle segue vindo antes da vida.

Quem governa hoje esse aparato é Delcy Rodríguez, presidente interina desde a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, em janeiro. Ela não chegou ao cargo pelo voto, mas por indicação do Tribunal Supremo de Justiça controlado pelo chavismo, a mesma estrutura que sustentou Maduro por mais de vinte anos: o mesmo período em que a Venezuela, um dos países mais ricos em petróleo do planeta, viu a economia ser destruída, a moeda virar papel e mais de sete milhões de cidadãos fugirem para sobreviver. Maduro está preso em Nova York, aguardando julgamento por narcotráfico. O sistema que ele construiu segue de pé, agora sob o comando de sua vice de sempre.

O terremoto durou 39 segundos. A gestão que transformou o Estado em obstáculo ao próprio povo dura desde muito antes disso e, segundo tudo indica, pretende durar depois.

A URGÊNCIA QUE CHEGOU TARDE DEMAIS

A Missão Internacional Independente de Determinação dos Fatos sobre a Venezuela, ligada à ONU, precisou pedir formalmente à Conatel, o órgão regulador de telecomunicações do país, o restabelecimento do acesso a redes nas zonas atingidas, condição mínima para que socorristas conseguissem se comunicar entre si. A mesma ONU que, em janeiro, classificou a captura de Maduro como violação do direito internacional levou seis dias para encontrar voz firme diante da Venezuela, e só a encontrou quando o problema virou logística de resgate, não direitos humanos. Não houve a mesma pressa, nos últimos vinte anos, para cobrar de Caracas eleições livres ou o fim da perseguição a opositores. A urgência do organismo, mais uma vez, mostrou-se proporcional à visibilidade da tragédia, não à gravidade do regime que a tornou possível.

O SOM DO SILÊNCIO

Os primeiros socorristas não foram equipes profissionais. Foram vizinhos. Em Caracas e em La Guaira, moradores cavaram escombros com as próprias mãos nas horas seguintes ao tremor, muito antes de qualquer ajuda oficial chegar. Só quando o barulho parava é que se ouvia o que interessava: vozes, batidas, qualquer sinal de vida sob o concreto. Mais de 2.600 socorristas internacionais, vindos do México, El Salvador, República Dominicana e Espanha, começaram a chegar no dia seguinte. A corrida contra o tempo já havia começado sem eles.

Uma história, entre milhares, basta para medir o que essa corrida significou.

Yimvert Berroterán tinha 18 anos e era considerado uma das maiores promessas do futebol venezuelano. Meia-atacante do UCV FC, havia disputado o Mundial Sub-17 de 2025 e, semanas antes do terremoto, defendera a seleção Sub-20 no Torneio Maurice Revello, na França. Voltou para casa, em Los Corales, La Guaira, com uma carreira em ascensão pela frente. Na noite de 24 de junho, o prédio onde estava com a namorada, Valentina Sandoval, desabou. Os dois ficaram soterrados, ainda com vida, por mais de 24 horas, dando sinais até a tarde seguinte. A mãe de Valentina gravou vídeos pedindo socorro; a Federação Venezuelana de Futebol compartilhou os apelos. As máquinas para remoção dos escombros só chegaram mais de um dia depois. Berroterán e Sandoval foram retirados sem vida em 26 de junho, encontrados abraçados sob as ruínas do edifício Coral Plaza.

CORPOS NAS RUAS, SEM LUGAR PARA ENTERRAR

Seis dias depois do tremor, a Venezuela não conseguia nem contar os mortos direito, muito menos enterrá-los com dignidade. O porto de La Guaira virou um necrotério a céu aberto: cadáveres em diferentes estágios de decomposição cobertos por sacos pretos, dispostos lado a lado sobre o concreto, à espera de identificação que pode nunca chegar. Equipes usam sacos de cal para conter um odor que já se mistura ao cheiro de esgoto nas ruas da região mais atingida do país.

Nos últimos dias, imagens do local mostram o mesmo cenário sob ângulos diferentes: corpos enfileirados na "zona de desastre" de La Guaira, no quinto dia seguido de buscas por sobreviventes; famílias transportando corpos em caminhonetes até necrotérios improvisados, porque não havia carros funerários disponíveis no colapso geral do sistema de saúde; famílias inteiras (mães, pais, filhos, primos, netos, vizinhos) arriscando-se entre placas de concreto, sem qualquer equipamento de proteção, para retirar com as próprias mãos corpos já em decomposição. Um morador resumiu: em alguns prédios, dias depois, não havia sido removida uma única pedra sequer.

Nem o adeus final tem sido possível dentro da normalidade. Os dois crematórios do único cemitério público de Caracas operam no limite: entre 26 e 27 de junho, mais de 60 cremações por dia foram realizadas ali.

O PESO QUE JÁ EXISTIA

Nada disso aconteceu num país preparado. A ONU estima que 1,7 milhão de edificações estavam expostas ao tremor, muitas erguidas sem qualquer fiscalização estrutural séria, num país onde quase 83% da população já vivia na pobreza, segundo o Banco Mundial. As perdas econômicas projetadas podem chegar a 6% do PIB. Hospitais operam além da capacidade, com equipes reduzidas e estruturas danificadas. A Unicef calcula que 1,8 milhão de venezuelanos, 680 mil deles crianças, precisam agora de água, abrigo e atendimento médico básico.

Passados seis dias do tremor, La Guaira seguia sendo o centro da tragédia: a região onde fica o principal aeroporto do país, onde bairros inteiros de Catia La Mar e Caraballeda foram riscados do mapa, e onde as buscas continuavam, réplica após réplica, mais de 130 já registradas desde o dia 24. Ninguém, nem o governo, nem a ONU, nem o USGS, sabia dizer com exatidão quantas pessoas ainda restavam sob o concreto.

O terremoto terminou em segundos. Mas o verdadeiro desastre permanece de pé: um sistema que sobrevive até quando seu povo não sobrevive.

Reconstruir prédios será difícil.

Reconstruir a Venezuela exigirá algo muito maior: devolver ao país um Estado que exista para proteger vidas, não para administrar ruínas.

Foto de Ale Chianelli

Ale Chianelli

Jornalista independente, escritora e correspondente internacional. Escreve sobre política, liberdade, antissemitismo e os conflitos que moldam o século XXI. Esteve em Israel durante a guerra contra o Hamas e acredita que o papel do jornalismo não é confirmar convicções, mas confrontá las com a realidade dos fatos. Em tempos em que ideologias frequentemente ocupam o lugar dos fatos, escolheu fazer do jornalismo um compromisso com a verdade.

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