Quando a união se torna mais importante do que ter razão

Ler na área do assinante

Os grandes movimentos da história raramente foram construídos sem divergências.

Diferenças de opinião, estratégias distintas e conflitos internos fazem parte da convivência humana. A política, talvez mais do que qualquer outra atividade, convive diariamente com essas tensões.

O verdadeiro teste, porém, não está na existência dos conflitos.

Está na capacidade de superá-los quando o objetivo coletivo passa a ser maior do que as diferenças individuais.

Foi justamente essa mensagem que ganhou destaque nos últimos dias.

Em vídeo divulgado nas redes sociais, o senador Flávio Bolsonaro fez um apelo público à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, reafirmando um convite ao diálogo e à união.

Segundo ele, "o diálogo, o respeito e a união vão ser sempre o melhor caminho" e "sozinho é muito mais difícil". O parlamentar também afirmou precisar "de todo mundo junto" para enfrentar os desafios políticos do país.

Independentemente das interpretações sobre os acontecimentos recentes, o gesto desloca o debate.

A discussão deixa de ser sobre quem venceu uma disputa interna, passa a ser sobre a necessidade de reconstruir pontes.

A jornalista Bárbara, do canal Te Atualizei, também destacou esse aspecto em sua análise.

Segundo ela, a poucos meses do processo eleitoral, alimentar divisões dentro de um mesmo campo político tende a enfraquecer justamente aqueles que compartilham objetivos semelhantes.

Sua reflexão parte de uma pergunta simples:

O que se ganha quando pessoas que defendem causas parecidas passam mais tempo discutindo entre si do que enfrentando os desafios que afirmam combater?

É uma pergunta que ultrapassa a política. Vale para empresas. Vale para famílias. Vale para instituições. Vale para qualquer grupo humano.

Conflitos internos consomem energia.

Enquanto isso, os desafios externos continuam existindo.

Talvez uma das frases mais significativas do vídeo seja justamente a afirmação de que, "se toda essa confusão serviu para que um grupo voltasse a caminhar unido, poderá sair mais forte e mais maduro".

Não significa apagar diferenças.

Muito menos exigir unanimidade.

Significa reconhecer que maturidade política também consiste em saber quando insistir na divergência deixa de produzir resultados.

A democracia vive do debate.

Mas nenhum projeto coletivo prospera quando o diálogo desaparece completamente.

A história mostra que grandes movimentos costumam enfrentar pressões externas.

Entretanto, muitas vezes, suas maiores dificuldades surgem quando as divisões internas passam a ocupar o espaço que deveria ser destinado à construção de objetivos comuns.

Ter razão pode trazer satisfação momentânea.

Construir consenso costuma exigir muito mais.

Exige humildade.

Exige diálogo.

Exige disposição para ouvir.

E, principalmente, exige compreender que, em determinados momentos, preservar a unidade pode ser mais importante do que vencer uma discussão.

Ao final, essa talvez seja a principal reflexão provocada pelo episódio.

Independentemente dos nomes envolvidos, toda organização que pretende atravessar o tempo precisa aprender uma lição simples:

Nenhum projeto coletivo se fortalece quando seus integrantes transformam uns aos outros em adversários permanentes.

Porque opiniões diferentes podem coexistir.

O respeito também.

E, quando isso acontece, a união deixa de ser apenas uma estratégia política.

Passa a ser um sinal de maturidade.

Com esta reflexão, encerro minha participação nesse debate cumprindo aquilo que considero ser a missão do jornalismo: ouvir, avaliar, ponderar e acreditar que o diálogo sempre será o caminho mais seguro para quem deseja construir, e não apenas vencer.

Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

Ler comentários e comentar