Por que torço para que o Brasil não ganhe a Copa

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Sei que muita gente emotiva vai me odiar por pensar assim.  Mas eu espero que o Brasil não ganhe a Copa. E explico porque:

Caso não tenham notado, uma copa de futebol não é um evento esportivo.  É um evento político. E é catártico. 

Explico: os brasileiros estão muito frustrados com a realidade - crise econômica, corrupção, alta dos preços, falta de perspectiva, imundície política, criminalidade, insegurança, alianças entre bandidos e políticos, podridão do judiciário etc.

A Copa surge então como uma oportunidade mágica para “dar alegria ao povo”, certo?

Como bons brasileiros, amamos nosso país e torcemos por ele.  Isso é normal.  Torça, mas seja consciente.

Se o Brasil ganhar a Copa, a alegria será passageira e ilusória.

Cada jogo é uma terapia coletiva na qual a vitória no campo varre para debaixo do tapete todas as frustrações da realidade.

Pior: o sofrido torcedor pode até achar que o governo Lula está funcionando bem.  Não está: lembrem dos escândalos do MASTER, do INSS, dos Correios, das facções criminosas, do judiciário, etc. só para citar alguns exemplos.

E, assim como no carnaval, vivemos por alguns dias a ilusão da vitória, da alegria, da satisfação, da superioridade esportiva como se fôssemos uma nação campeã.  Não somos nada. Mas podemos ser muito mais. 

Portanto, prefiro que o Brasil não ganhe.  Quem sabe assim cada brasileiro acorde e veja que somos na verdade uma plateia apática de 210 milhões de espectadores, enquanto algumas centenas de espertalhões ficam milionários jogando com o dinheiro dos nossos impostos.

A verdade dói, eu sei. 

Afinal, o que custa ver a alegria e a alienação do nosso povo?

Eu digo que custa muito mais do que vocês pensam.  Basta ver os indicadores mostrando o Brasil como um dos países que mais recolhe impostos e devolve menos ao contribuinte.  O Brasil como um dos países que mais cria dificuldades para quem quer trabalhar e empreender.

Um país onde a grande maioria se mata de trabalhar e nem tem como sobreviver de modo decente.

Se você tem alguma consciência social, pense nisso.

É preferível ver um povo acordado cobrando resultados dos eleitos, do que uma massa inebriada pela alegria passageira de um jogo na Copa. 

Só assim o Brasil finalmente pode ser o campeão que merece ser: nas artes, nas ciências, na economia, na política, na literatura, e, quem sabe, talvez até no futebol.

Jonas Rabinovitch. Arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior em Gestão Pública, Inovação e Urbanismo da ONU em Nova York.

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