Carta aberta à Michelle Bolsonaro

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Importante iniciar esse texto com esclarecimento: sou profundo admirador de Michelle Bolsonaro tanto como primeira-dama, como pelo trabalho que ela fez no PL Mulher, inédito na estrutura partidária brasileira. Dito isso, não dá para negar Michelle derrapou ao criticar publicamente Flávio Bolsonaro. O que a nossa eterna primeira-dama não entendeu é que ela não estava criticando o seu enteado, nem mesmo presidenciável, ela estava atacando a única esperança viável de tirar o Brasil das mãos da gangue que nos aterroriza a mais de 20 anos.

A vida pública nos traz muitos privilégios e Michelle viveu o ápice disso durante quatro anos – mas a política tem um preço e o primeiro deles é o sacrifício da sua individualidade. Especialmente quando você representa milhares ou milhões. Senhora Michelle, o seu esposo reescreveu a política brasileira e se tem alguém responsável pela candidatura do senador Flávio à presidência, é ele. E como patriarca dessa dinastia ele tem direito às suas escolhas.

Seja qual for a ofensa ou afronta feita pelos seus enteados, a Sra acha justo que o Brasil inteiro fique nas mãos desse, digamos, "grupo" por mais quatro anos? E as dezenas de homens e mulheres presos injustamente naquele fatídico oito de janeiro; elas já não sofreram o suficiente?

Ouvimos que a origem da cizânia seria uma eventual indicação para o senado cearense ou até mesmo uma coligação com o PSDB local. Cara Michelle entenda que nesse momento os patriotas não o enxergam como o velho coronel, Ciro Gomes, ou mesmo como tucano, mas sim como o único homem capaz de tirar o Ceará das mãos do PT e isso já justifica qualquer aliança. A política é a arte do possível e não do ideal. A senhora está virtualmente eleita para o Senado, um privilegio que 99% dos que amam política jamais terão – não acredito que a senhora ache isso um prêmio de consolação. Pense comigo, será que em 2006 a senhora sequer sonhava em ser senadora? Tenho certeza que não.

Pensando a longo prazo, depois desses arroubos (vídeo, renúncia do PL Mulher, ameaça de desistência da candidatura ao senado etc.) se eventualmente Flávio não tiver sucesso, adivinhe quem será responsabilizada? Claro que isso não seria justo, mas de novo, política não tem nada a ver com justiça. Nos últimos dias com suas ações precipitadas a senhora conseguiu o prodígio de ser desmentida pelo pouco crível Garotinho e também pela mais petista dos jornalistas, Daniela Lima. Calma, isso não é o fim da linha, mas um sinal evidente para rever sua postura. Errar na política é do jogo, mas persistir no erro é burrice

Michelle mostrou personalidade desde o discurso de posse quando ela impressionou o Brasil traduzindo as palavras do presidente eleito Jair Bolsonaro para o idioma de libras, ela também deixou claro que é uma cristã fervorosa. Chegou a hora dela provar essa asserção demonstrando uma característica inerente a um bom cristão: a capacidade de perdoar.

Eduardo Negrão

Consultor político e autor de "Terrorismo Global" e "México pecado ao sul do Rio Grande" ambos pela Scortecci Editora.

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