A campeã simbólica da Copa do Mundo

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Escrevo ainda sob o impacto do jogo Argentina 3 x 2 Cabo Verde. Um jogo que mostrou, como nenhum outro, que o favoritismo, o desnível entre dois times precisa ser sustentado em campo.

Cabo Verde tem um esquema defensivo bem armado, e já havia mostrado suas qualidades contra Espanha e Uruguai. Os argentinos entraram em campo desprezando esse retrospecto. Afinal, são os campeões do mundo e têm o melhor do mundo em sua equipe, Messi. Cabo Verde? Só mais um figurante, em uma Copa dos protagonistas.

Mas o futebol, ah o futebol. O tempo foi passando, a Argentina jogando de maneira preguiçosa, com aquela convicção de que resolveria a peleja quando quisesse. O primeiro gol de Messi, já tarde para as expectativas criadas de uma goleada histórica, parecia confirmar essa leitura. Mas Cabo Verde se recusou a seguir o script.

Fez o gol de empate e segurou o ataque argentino. Vozinha fez quatro grandes defesas em chutes de Messi. Mais do que isso: a seleção de Cabo Verde não jogou de maneira covarde, pelo contrário, também saiu para o jogo, levando também perigo para a meta argentina de vez em quando. Assim, conseguiu levar a partida para uma inacreditável prorrogação. O mundo do futebol estava em choque, ainda maior, se era possível, do que quando Cabo Verde arrancou um empate contra a Espanha.

O gol da Argentina no início da prorrogação parecia recolocar as coisas nos seus devidos lugares, e era uma questão de tempo para que a campeã do mundo, finalmente, fizesse jus ao seu favoritismo. Mas então, como em um daqueles roteiros cheios de plot twists, o lateral de Cabo Verde faz um gol antológico. Um gol de Messi, trocando de papéis com o astro argentino.

Naquele momento, eu, e acredito, grande parte dos que estavam assistindo ao jogo, comecei a acreditar que era possível. Comecei a acreditar em algo que os jogadores de Cabo Verde acreditavam desde o início da Copa: sim, era possível.

Os deuses do futebol não quiseram que fosse dessa vez. Deu a lógica, no final das contas. Mas se alguém dissesse, antes de começar a Copa, que Cabo Verde se classificaria em segundo lugar uma chave com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, e levaria um mata-mata com a Argentina para a prorrogação fazendo dois gols depois de estar em desvantagem duas vezes no marcador, ninguém em sã consciência acreditaria.

Cabo Verde é daqueles cometas que aparecem muito de vez em quando e provavelmente vai sumir do mapa futebolístico depois da Copa. Mas o seu feito ficará eternizado, como uma demonstração do que é feita, afinal, uma Copa do Mundo. Para mim, Cabo Verde é a campeã simbólica dessa Copa.

Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.

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da Redação
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