A decadência do futebol brasileiro é trabalhada nos bastidores da FIFA

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Um ciclo carregado de malvadeza pelo “bem do futebol mundial”, nos mesmos moldes do ciclo implantado na política brasileira que diz que é pelo “bem da democracia”, vem sendo capitaneado pela FIFA há décadas.

Quando a FIFA se deu conta que é maior e tem mais poder sobre os povos do que a ONU - 211 países membros contra 193 países membros, respectivamente, e conseguiu perceber que a instabilidade e vulnerabilidade política e econômica de países estratégicos ampliam seu domínio geopolítico, exerce esse poderio com maestria para dominar massas e faturar altíssimo no campo de jogo econômico e financeiro.

E tem método e atores competentes para este exercício. A FIFA tem o beneplácito das Confederações, que por sua vez contam com a condescendência das Federações e a inércia e cumplicidade dos seus grandes clubes. Outros dois atores têm papel importante na trama; a classe política que se beneficia e o povo que é docemente suscetível.

Trazendo aqui para nosso terreiro, a FIFA tem a CBF, que tem as Federações Estaduais, que têm os grandes clubes. Cada qual come, literalmente, na mão do outro. Os políticos capitalizam tudo isso em votos e o povo, que se deixa levar pelas emoções, se diverte com o pão e o circo que lhes é oferecido.

Para ilustrar, vamos pontuar algumas passagens pelo tempo que tem o envolvimento, ou pelo menos a permissividade, destes protagonistas.

DAS ENTIDADES CONTINENTAIS E NACIONAIS

Quem não se lembra da força da Confederação Sul-Americana de Futebol para favorecer os clubes argentinos nas competições do continente, e que fazia dos hermanos campeões, um atrás do outro. Isso só foi dar uma equilibrada a partir das transmissões das partidas ao vivo pela TV. Pegando um período de 21 anos (de 1960 a 1980), a Argentina dominou a competição com doze títulos, seguido pelo Uruguai com cinco, pelo Brasil com três e o Paraguai com apenas um título.

No âmbito doméstico, a CBF, no mesmo papel, desde sempre foi acusada de favorecer clubes de grandes centros como Rio e São Paulo. Para parametrizar a comparação, no mesmo período de 21 anos (1971 a 1991), paulistas e cariocas faturaram 13 títulos, e os outros 8 títulos foram divididos para 4 gaúchos, um mineiro, um baiano, um pernambucano e um paranaense.

O DOMÍNIO ESTRUTURAL E CONJUNTURAL

O Brasil sempre teve os maiores estádios do mundo, por exemplo, o Maracanã, o Morumbi e o Mineirão, que sempre superaram em muito a presença de público com relação aos europeus. Em 1950, na final da Copa do Mundo entre o Brasil e o Uruguai, 199.854 presentes, sendo 173.850 pagantes, assistiram ao jogo. O trabalho de “reformas dos estádios” pelo mundo, com as exigências da FIFA, teve um aspecto interessante. Os estádios europeus incharam e os estádios brasileiros murcharam. Fora os grandes templos que foram construídos em diversos países. Foi-se o tempo que tínhamos os maiores estádios do planeta.

Falando em maiores… o Brasil é único país do mundo que tem em competições nacionais e internacionais o maior número de clubes considerados grandes, dez (no mínimo), enquanto em outros centros, o número de clubes gigantes não passa de quatro em suas competições. Mas um fenômeno que poucos têm a percepção de ver, ou de verbalizar, é que há algumas indicações que nos fazem crer que movimentos pretendem que apenas dois ou três clubes do Brasil sejam classificados como gigantes mundiais. Os indícios estão aí para quem quiser ver. Que se cuidem os outros!

A GOVERNANÇA DA FIFA

Há um ponto ainda mais sensível para esta avaliação. O poder de governança interna e externa que a FIFA adquiriu é tão colossal que ela avança e conversa no mesmo patamar com entidades e instituições internacionais, com missões diplomáticas e com chefes de Estado. Alcança com enorme influência diretrizes governamentais e até o poder judiciário dos países.

Se na esfera interna a FIFA se desdobra para manter as aparências de legitimidade, acaba tropeçando na própria incoerência, e da mesma maneira, fica exposta quando a tratativa é na esfera externa. Imposições tais quais como aquelas interferências na escolha das cores dos uniformes das seleções, interpretações da cultura e até religiosa deste ou daquele país ou ainda sobre validade de leis nacionais que atrapalham seu “negócio”, são descritas e tratadas como “direitos” da organização. Para ficar aqui próximo de nós, nesta Copa do Mundo, a FIFA queria que o uniforme número dois de goleiro do Brasil fosse na cor vermelha, mas felizmente, a CBF não permitiu e conseguiu se posicionar positivamente, anulando a tentação. Em 2014, na Copa do Mundo no Brasil, o Congresso Nacional cedeu às pressões da “Lei da FIFA” e alterou a lei que não permitia bebidas alcoólicas nos estádios e no entorno deles. Foi constrangedor!

Sobre suas próprias leis desportivas, é recente na memória do torcedor, como a FIFA se complica. Dois casos, ambos sobre questões disciplinares, envolveram interesses escusos, para falar o mínimo. Nas eliminatórias europeias, o atacante português Cristiano Ronaldo foi expulso em um jogo, e julgado, foi suspenso por três jogos. Cumpriu um deles, mas acontece que os outros dois deveriam ser cumpridos nesta atual Copa. O que a FIFA fez? Acionou o artigo 27 do seu próprio regulamento que lhe dá o direito de alterar uma decisão disciplinar, ou seja, altera e atropela a independência do seu tribunal desportivo. E sem dó!

Sem pudores, utilizou da mesma artimanha para anular a suspensão automática por cartão vermelho do jogador Balogun expulso por jogo violento nesta mesma Copa. Uma ligação do presidente americano, Donald Trump, para o presidente da FIFA, Gianni Infantino, foi o suficiente para agradar os americanos. Punição suspensa. Mas, para bem da justiça esportiva, o destino aplicou um cartão vermelho coletivo para seleção americana que foi eliminada da Copa no jogo em que Balogun não deveria estar em campo. A FIFA ainda não chegou ao ponto de dominar o destino natural, espiritual ou cósmico.

PODERIO FINANCEIRO     

O aspecto financeiro é outro tema que merece atenção. A FIFA estima um faturamento de 8,9 bilhões de dólares nesta Copa do Mundo, disputada em três países pela primeira vez em sua história - Estados Unidos, México e Canadá. E sua expansão política internacional se fortalece cada vez mais. Até 1994, desde 1930, eram 24 seleções ou menos. A partir de 1998 o número de países subiu para 32 na Copa do Mundo, e neste ano já são 48 países. E não para por aí. Já avaliam ampliar ainda mais sua influência internacional com 64 seleções, em breve.

Para se ter uma ideia da dimensão deste faturamento, o valor supera o PIB de 58 países de uma lista de 218 levantada pelo FMI em 2026. Absurdo? Que nada… no mesmo plano do futebol, clubes e até jogadores faturam tanto dinheiro que hoje não negociam mais contratos de trabalho entre si. Eles compram os clubes pelo mundo. É aquela brincadeira… o sistema não toma o mel, ele come a abelha!

Além de todo esse cenário onde o poder tem papel hegemônico e determinante, o caráter financeiro do sistema é o que balança as estruturas do futebol. No Brasil isso é visível! A começar pela crise de identidade dos jogadores que vão embora do seu clube criador, e do país, cada vez mais cedo. A essência da natureza do jogador brasileiro, da competitividade à arte de jogar, da intimidade à cumplicidade com a bola, acabam se perdendo, entre outros fatores, por esse “desligamento” das cores clubistas, da própria nacionalidade e do pertencimento lúdico e popular que tinham com o futebol. O espírito esportivo perdeu fôlego. O sentido de empoderamento pessoal ganhou oxigênio.

É triste, mas esta perda de identidade atinge em cheio a própria nacionalidade dos agentes do esporte bretão. Hoje se misturam nacionalidades diferentes para representar e defender uma nação. De jogadores a dirigentes, passando pelos treinadores. Só falta contratar o próprio torcedor. Hoje é comum, mas na minha opinião, inaceitável. Ver um italiano treinando nosso time, vestindo nosso manto e falando o português trôpego, é lamentável.

E lá se vai o futebol brasileiro, de fiasco em fiasco, para a mesmice que está se equiparando no mundo. Graças aos bombardeios da FIFA e seus séquitos!

Alexandre Siqueira

Vice-presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Independente e Afiliados - AJOIA Brasil - Colunista Jornal da Cidade Online - Autor dos livros Perdeu, Mané! e Jornalismo: a um passo do abismo..., da série Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa! Visite:  http://livrariafactus.com.br

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