A natureza ensina em silêncio. Ela não escreve livros, não faz discursos, não participa de debates. Apenas acontece. E, justamente por isso, talvez seja a professora mais honesta que existe.
Recentemente assisti a uma cena que, à primeira vista, parecia apenas mais um vídeo sobre a vida selvagem. Uma cobra havia capturado um pequeno caracol. O molusco fazia tudo o que podia para sobreviver. Recolheu-se completamente à sua concha, sua única proteção diante de um inimigo muito mais forte. A cobra não desistiu. Sem pressa. Sem raiva. Sem violência desnecessária. Apenas aguardou. Durante longos minutos tentou retirar, pouco a pouco, aquele pequeno animal de sua fortaleza natural. No fim... A força venceu.
Quem assistia poderia concluir que aquela cobra era a dona absoluta daquela história. Mas bastaria levantar os olhos para perceber outra realidade. Enquanto domina o caracol, a cobra jamais deixa de ser vulnerável. Ela teme a sombra da águia que circula no céu. Evita a aproximação da seriema, cuja habilidade para enfrentar serpentes impressiona até os biólogos. Foge do javali. Pode tornar-se presa de um jacaré. E, muitas vezes, encontra no próprio homem o seu maior predador.
Foi então que compreendi que a natureza nos entrega uma das maiores lições sobre a vida.
Não existem intocáveis.
A cobra acredita dominar o caracol. Mas nunca deixa de olhar para o céu. Porque sabe que a águia existe.
Talvez essa mesma lógica explique muito da própria história da humanidade. Ao longo dos séculos, homens acreditaram possuir poder absoluto. Reis imaginaram que seus tronos seriam eternos. Imperadores acreditaram que seus exércitos jamais seriam derrotados. Governantes confundiram autoridade com superioridade. Alguns chegaram a pensar que jamais responderiam por seus atos. Todos descobriram, cedo ou tarde, que estavam enganados.
A história é implacável com aqueles que acreditam estar acima dela. O tempo derruba impérios. A verdade desmonta narrativas. A justiça, ainda que tardia, muitas vezes alcança quem imaginava jamais prestar contas. E, quando isso não acontece diante dos homens, permanece o julgamento silencioso da própria consciência e da história.
Vivemos dias em que, por vezes, a maldade parece caminhar com passos largos. Assistimos à arrogância sendo confundida com força. À prepotência sendo apresentada como virtude. À injustiça tentando ocupar o lugar da justiça.
Em determinados momentos, somos levados a acreditar que o mal venceu. Mas basta observar a natureza para compreender que ela jamais concede a alguém um poder definitivo. Sempre existe uma força maior. Às vezes ela chega rapidamente. Às vezes leva anos. Em outras ocasiões, manifesta-se de formas que ninguém consegue prever. Mas chega.
É exatamente essa certeza que impede as pessoas de bem desistirem. Porque quem acredita apenas na força costuma esquecer que existe algo muito mais poderoso do que ela. A verdade.
Ela pode ser sufocada. Pode ser ridicularizada. Pode ser perseguida. Pode até parecer derrotada durante algum tempo. Mas possui uma característica extraordinária. Nunca deixa de existir.
E talvez seja essa a maior diferença entre a natureza e o homem. Os animais lutam para sobreviver. Nós lutamos, também, para preservar princípios. A honestidade. A dignidade. A liberdade. A fé.
Esses valores não produzem manchetes todos os dias. Mas são eles que sustentam uma civilização.
Quando uma sociedade deixa de acreditar neles, passa a admirar apenas quem parece mais forte, nessas horas até nos deixamos impactar por conta de estarmos perdidos. E esse costuma ser o primeiro passo para sua própria decadência. Por isso, sempre que a sensação de injustiça parecer insuportável, vale a pena lembrar daquela simples cena.
Uma cobra dominava um pequeno caracol. Parecia invencível. Mas continuava olhando para o céu.
Porque, mesmo na natureza, quem hoje se sente absoluto nunca deixa de estar sujeito à existência de uma força maior. E talvez essa seja uma das mais belas lições que Deus deixou espalhadas pela criação.
Na natureza, não existem intocáveis. Na vida... também não.
Quando olhamos para o céu em oração, descobrimos que as respostas de Deus raramente fazem barulho.
Elas chegam silenciosamente, como a sombra de uma águia cruzando o horizonte, lembrando-nos de que os milagres existem justamente quando a esperança parecia ter desaparecido.
Talvez seja essa a maior lição da própria natureza: acima da força existe a inteligência; acima da inteligência existe a verdade; e, acima de tudo, existe Deus.
Jayme Rizolli
Jornalista.