O que a Prada decidiu não ver

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Na semana da Semana de Moda Masculina de Milão, a Prada anunciou Marwan Abdelhamid, o rapper franco-argelino-palestino conhecido como Saint Levant, como seu mais novo embaixador global, apresentado aos 33 milhões de seguidores da marca em um vídeo no Instagram. No material promocional, Abdelhamid usa um pingente em forma do mapa da Palestina histórica, do rio ao mar, sem Israel. A Prada não explicou a escolha. Também não precisava: a imagem fala por si.

O currículo político de Abdelhamid já era conhecido antes da assinatura do contrato. Em novembro de 2024, dias depois de gangues em Amsterdã caçarem torcedores da Maccabi Tel Aviv pelas ruas, a polícia holandesa registrou perseguições com facas e atropelamentos deliberados,  Abdelhamid subiu ao palco em um show e agradeceu, sorrindo, "aos nossos irmãos marroquinos" pelo que fizeram. "Não é a primeira vez que eles vêm a uma terra que não é deles e causam confusão", disse. "Então obrigado por cuidar do assunto." É verdade que alguns torcedores da Maccabi também protagonizaram atos condenáveis naquela noite, cantos racistas contra árabes, inclusive. Mas nenhum morador de Amsterdã foi caçado a facadas por causa deles. A diferença entre os dois lados daquela noite não é uma nuance editorial: é o motivo pelo qual uma marca de luxo contrata um deles como rosto global e o outro, não.

Esse é o ponto que a Prada preferiu não ver. Se Abdelhamid tivesse comemorado publicamente um ataque a torcedores palestinos, sua carreira teria terminado antes do fim de semana. Como o alvo era judeu, o gesto foi absorvido, meses depois, como parte do currículo de um "embaixador global", sem nota de esclarecimento, sem pergunta incômoda de nenhum veículo de moda que cobriu o anúncio como se fosse apenas mais uma escalação de talento jovem para o mercado árabe do Golfo.

A elasticidade moral aqui não é acidente de percurso. É o mesmo antissemitismo de sempre, apenas com etiqueta nova costurada por cima. Na Espanha de Torquemada, o judeu era suspeito por não professar a fé certa. Na Alemanha de 1935, por pertencer à raça errada. Em Milão, em 2026, o problema já não é teológico nem racial, é geográfico: o judeu que insiste em existir dentro das fronteiras erradas, no mapa errado, no pingente errado. O vocabulário muda a cada geração exatamente para que ninguém precise admitir que o impulso é o mesmo.

O que chama atenção não é que a Prada tenha um embaixador com opiniões políticas, toda grande marca tem. É que, entre todas as opiniões políticas disponíveis no mercado de talentos globais, a empresa escolheu, sem constrangimento, celebrar publicamente a que comemora violência contra judeus. Ninguém em Milão perguntou se essa era a mensagem que queriam vender junto com o casaco de 3 mil euros. Ou perguntaram, e a resposta foi sim.

Judeus não devem satisfação a ninguém por caminhar em uma rua europeia à noite, torcer por um time de futebol ou existir dentro de um mapa. Quando uma marca com alcance de dezenas de milhões de pessoas trata esse direito como negociável, e o transforma, ainda por cima, em capital de marca,  o problema deixou de ser da Prada. Passou a ser de todos que assistiram ao anúncio e não disseram nada.

Foto de Ale Chianelli

Ale Chianelli

Jornalista independente, escritora e correspondente internacional. Escreve sobre política, liberdade, antissemitismo e os conflitos que moldam o século XXI. Esteve em Israel durante a guerra contra o Hamas e acredita que o papel do jornalismo não é confirmar convicções, mas confrontá las com a realidade dos fatos. Em tempos em que ideologias frequentemente ocupam o lugar dos fatos, escolheu fazer do jornalismo um compromisso com a verdade.

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