“Fator inédito” na eleição em SP aterroriza o PT e pode ser decisivo no 2º turno

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Uma importante análise publicada nesta segunda-feira (13) pela jornalista Malu Gaspar, em O Globo, dá a exata dimensão do significado da vítória de Tarcísio de Freitas no 1º turno em São Paulo. Esse resultado pode garantir o triunfo de Flávio Bolsonaro num eventual 2º turno contra Lula. Leia o texto. É esclaredor.

“A menos que ocorra uma reviravolta no cenário político, a eleição para governador em São Paulo terá um inédito ‘segundo turno antecipado’, com só dois candidatos de legendas expressivas com chance real na disputa: o incumbente Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-prefeito da capital Fernando Haddad (PT). Conhecido pela profusão de lideranças, o estado sempre contou com três e até quatro candidaturas competitivas no primeiro turno desde a retomada do voto direto para o cargo, em 1982.
Tal cenário vem preocupando a campanha de Lula não pela chance maior de vitória de Tarcísio, que tem melhor desempenho nas pesquisas, mas por outro fator: se a eleição for decidida no primeiro turno, o presidente da República fica sem palanque no estado no segundo turno, tendo como eleito um aliado de Flávio Bolsonaro.
O ‘segunto turno antecipado’ é uma possibilidade real em São Paulo, já que bastaria o atual governador receber 50% dos votos válidos mais um para ser reeleito com a vantagem de estar no controle da máquina pública e o apoio da maior parte dos prefeitos.
O estado é o maior colégio eleitoral do país, com cerca de 34 milhões de pessoas aptas a votar – ou 22% do eleitorado nacional.
Além de Haddad e Tarcísio, concorrerão ao Palácio dos Bandeirantes os nanicos Carlos Machado (PCB), Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (UP). São partidos sem representação no Congresso Nacional e tempo de TV e rádio. Por lei, não recebem recursos do fundo eleitoral e, além disso, as emissoras não são obrigadas a convidá-los para os debates.
Na pesquisa Datafolha divulgada no último dia 5, Tarcísio marcou 46% das intenções de voto contra 30% do petista. Descartados os votos nulos e brancos, o pré-candidato do Republicanos chegaria a 52% dos votos válidos.
Vera Lúcia marcou 5%, seguida de Machado e Vivian, com 4% cada. Porém, nenhum dos três pontuou na pesquisa espontânea, quando os nomes dos candidatos não são apresentados previamente – neste recorte, Tarcísio teve 21% das menções e Haddad, 8%. Historicamente, as intenções de voto em nanicos na pesquisa estimulada acabam dispersas entre as candidaturas de partidos maiores e com projeção no Congresso e no horário eleitoral.
Embora não admita publicamente, a campanha do PT contava com a candidatura ao governo de Kim Kataguiri (Missão), liderança do Movimento Brasil Livre (MBL) cujo eleitorado também se enquadra no campo da direita. Mas o deputado federal desistiu da empreitada e disputará a reeleição. Em menor grau, também havia expectativa em torno da federação PSDB-Cidadania na figura de Paulo Serra, que concorrerá a uma vaga na Câmara.
Os dois tiveram 5% cada na última pesquisa Datafolha que os incluiu na relação de pré-candidatos, divulgada em março passado. Enquanto Kataguiri e o Missão se manterão neutros na corrida, a tendência é que Serra e os tucanos apoiem Tarcísio.
Em 2022, São Paulo foi determinante para o retorno de Lula ao Palácio do Planalto pela margem mais apertada da história, quando o petista venceu o então presidente Jair Bolsonaro por 50,9% a 49,1% dos votos.
Embora derrotado por Bolsonaro a nível estadual, tanto o petista quanto Haddad venceram na capital, cidade mais populosa do país, e em cidades da região metropolitana como Diadema, Osasco, Francisco Morato, Itapecerica da Serra e São Bernardo do Campo, entre outras.
A título de comparação, Bolsonaro derrotou Haddad na disputa presidencial de 2018 em 631 dos 645 municípios paulistas, incluindo a capital. Na ocasião, o então candidato do PSL teve 55,1% dos votos válidos nacionalmente contra 44,9% do petista.
É esse pano de fundo que tem assombrado aliados próximos de Haddad a menos de um mês para o prazo limite para as convenções partidárias. O xadrez de São Paulo tende a ser novamente determinante para o desfecho nacional e, diante da indefinição sobre o palanque petista em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, ganha ainda mais importância na estratégia do PT.
O duelo antecipado entre Tarcísio de Freitas e Fernando Haddad já no primeiro turno não encontra paralelo no histórico paulista. Nos últimos 44 anos, sempre houve pelo menos um candidato viável além dos dois primeiros colocados, mesmo antes do segundo turno ser instituído pela Constituição de 1988.
O padrão se manteve mesmo quando o PSDB, que comandou São Paulo entre 1995 e 2023, tinha predomínio absoluto sobre a política paulista. Além disso, outras candidaturas periféricas, mas com votações medianas, ajudaram a forçar uma definição na segunda etapa.
Na eleição mais recente, a de 2022, Tarcísio e Haddad também se enfrentaram e levaram a eleição para o segundo turno. Na primeira etapa, superaram o então governador, Rodrigo Garcia (PSDB), Vinicius Poit (Novo) e Elvis Cezar (PDT), além de vários outros nanicos. O padrão se repete nas últimas quatro décadas.
Em 1982, quando Franco Montoro (PMDB) foi eleito derrotando Reynaldo de Barros (PDS), a dupla enfrentou outros dois candidatos de peso: Lula (PT) e o ex-presidente Jânio Quadros (PTB). Já em 1986, Orestes Quércia (PMDB) venceu a disputa e superou Antônio Ermínio de Moraes (PTB), mas Paulo Maluf (PDS) e Eduardo Suplicy (PT) também tiveram resultado expressivo.
Na primeira eleição a ter a previsão legal de segundo turno, em 1990, Luiz Antônio Fleury (PMDB) derrotou Maluf em uma votação apertada. Na primeira rodada, porém, os dois enfrentaram rivais fortes: Mário Covas (PSDB) e Plínio de Arruda Sampaio (PT).
Quatro anos depois, Covas levou a disputa no segundo turno contra Francisco Rossi (PDT), mas antes enfrentaram José Dirceu (PT) e Barros Munhoz (PMDB). Em 1998, o tucano foi reeleito contra Maluf. No primeiro turno, a dupla contou com três rivais de peso: Marta Suplicy (PT), Rossi e o ex-governador Quércia.
Já em 2002, Geraldo Alckmin (PSDB) bateu José Genoíno (PT). Maluf ficou de fora do segundo turno com mais de 20% dos votos válidos seguido de um pelotão que somava quase 1,4 milhão de eleitores: Carlos Apolinário (PGT), Lamartine Posella (PMDB), Carlos Pitolli (PSB) e Antônio Cabrera (PTB).
Na eleição seguinte, o tucano José Serra foi eleito em primeiro turno. Apesar disso, Aloizio Mercadante (PT) teve quase 7 milhões de votos, enquanto o ex-governador Quércia, Plínio de Arruda Sampaio e Apolinário somaram quase 2 milhões de eleitores.
Em 2010, outra disputa decidida já na primeira rodada, Alckmin voltou ao Bandeirantes, mas enfrentou quatro candidatos com votação expressiva: Mercadante, Celso Russomanno (PP), Paulo Skaf (PSB) e Fábio Feldmann (PV). O governador foi reeleito em 2014 no primeiro turno contra dois rivais também muito votados: Skaf (agora no PMDB) e Alexandre Padilha (PT).
Com a onda ultraconservadora que levou à eleição de Jair Bolsonaro como presidente em 2018, São Paulo teve o segundo turno mais apertado da história. João Doria (PSDB) superou Márcio França (PSB) por apenas 741 mil votos.
Antes, enfrentaram Skaf, Luiz Marinho e uma fila de candidatos do Novo, PDT, PSOL, DC e PRTB que somaram quase 3 milhões de votos.
Como se vê, a batalha para que Haddad force um segundo turno contra Tarcísio no comando do Palácio dos Bandeirantes será duríssima.”

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