Investigação detalha chantagem macabra na Saúde: “Vai morrer todo mundo”
15/07/2026 às 07:58 Polícia
A operação Gutemberg foi deflagrada pelo GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) com o objetivo de desarticular uma organização criminosa que desviou cerca de R$ 27 milhões dos cofres públicos por meio de fraudes em licitações e extorsão na área da saúde.
O grupo utilizava a compra de livros didáticos por prefeituras como "pedágio" para justificar o repasse de verbas. O aspecto mais grave da investigação revelou que servidores cooptados e membros da organização condicionavam a liberação de leitos, cirurgias e exames pelo SUS à compra dos livros vendidos pelo grupo criminoso. Os valores eram distribuídos entre os integrantes da organização e servidores públicos corrompidos.
"Vou trancar", "saúde zero", "só opera se fechar", "deixa o povo sem leito lá" e "vai morrer todo mundo". As frases aparecem em conversas reunidas pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado) durante a investigação sobre o esquema. Segundo o órgão, os diálogos mostram que o acesso à estrutura pública de saúde era usado como instrumento de pressão para conseguir contratos municipais.
No centro dessa parte da investigação estão o então servidor estadual Ed Carlo Britto Burgatt e o advogado Gabriel Taquino de Paula, os dois presos atualmente. O primeiro era o coordenador estadual de Regulação Assistencial da SES (Secretaria de Estado de Saúde), enquanto Gabriel aparece no procedimento como vendedor da Editora Avante, que vendia as obras às prefeituras. Para o GAECO, as mensagens indicam negociações fraudulentas.
Um dos episódios considerados mais graves ocorreu em agosto de 2022 e envolveu a cidade de Nova Alvorada do Sul. Conforme o relatório, Ed Carlo e Gabriel discutiam as dificuldades para fechar um contrato da Editora Avante com o município. O GAECO afirma expressamente que Ed Carlo teria usado seu cargo na saúde estadual para condicionar o encaminhamento de cirurgias e exames à contratação da empresa.
"Vou trancar", escreveu Ed Carlo, segundo a transcrição. Em seguida, afirmou que ligaria para o prefeito e reclamou de ter ajudado o município "pra nada". Depois, acrescentou: "Eu tranco tudo aqui", "e não ajudo eles em nada" e "saúde zero". Para os investigadores, a sequência mostra uma ameaça de restringir benefícios na área caso a negociação comercial não avançasse.
Horas mais tarde, a conversa voltou ao suposto acerto com a prefeitura. Gabriel informou que Ed Carlo receberia R$ 80 mil. Na sequência, o servidor respondeu: "Vou dar 300 mil de exames pra eles, fora as cirurgias". Na sequência, completou: "A escolha é deles".
As mensagens também revelam preocupação com o sigilo. Gabriel afirmou que o negócio deveria ser mantido em segredo, enquanto Ed Carlo respondeu que ninguém poderia saber e justificou: "Tenho um cargo em jogo". A conversa terminou com um pedido direto: "Então boca de siri".
Dez dias depois, a investigação encontrou outro episódio envolvendo a mesma cidade. Ed Carlo informou que marcaria dez exames de ressonância para uma pessoa chamada Edmar. Mais tarde, foram compartilhados arquivos referentes a diferentes pacientes e o servidor escreveu: "Conforme prometido 10 ressonâncias por mês". O GAECO relaciona essas mensagens às negociações em andamento com Nova Alvorada do Sul.
O tom ficou ainda mais explícito em setembro de 2022. Gabriel enviou uma proposta comercial de Nova Alvorada do Sul e, ao discutir o avanço do negócio, escreveu: "só opera se fechar". Segundos depois, acrescentou: "senão vai morrer todo mundo".
O próprio relatório do Gaeco interpreta a conversa como uma referência às cirurgias que Ed Carlo poderia encaminhar ao município em razão de seu cargo e que estariam sendo associadas à contratação da editora.
Dias depois, com a informação de que a prefeitura não conseguiria contratar por falta de orçamento, Gabriel sugeriu uma retaliação. "Deixa o povo sem leito lá", escreveu em 5 de setembro. No dia seguinte, insistiu: "Suspende as cirurgias de Nova Alvorada". A justificativa veio logo depois: "O cara não cumpriu".
A investigação também encontrou conversas semelhantes envolvendo a cidade de Ivinhema. Em novembro de 2022, Gabriel enviou a Ed Carlo informações sobre demandas de saúde e pediu ajuda. Disse ainda que, caso sua venda no município saísse, daria ao servidor "um presente bom".
Ed Carlo respondeu: "Eu resolvo tudo", mas condicionou a ajuda: "Se ele nos ajudar lá". Em outro momento, afirmou: "Eu resolvo a vida dele na saúde". Gabriel então respondeu que havia dito ao interlocutor ter "um amigo que resolve", mas acrescentou: "precisa agraciar ele".
Para o Gaeco, as conversas mostram uma troca de favores em que o acesso à regulação de saúde serviria para abrir portas a negócios privados.
O relatório também registra que Ed Carlo recebeu R$ 50,5 mil da Editora Avante em duas transferências, uma de R$ 20,5 mil e outra de R$ 30 mil.
Em janeiro de 2023, outra conversa voltou a associar diretamente uma vaga no sistema de saúde a interesses comerciais. Gabriel comunicou que tinha reunião com o prefeito de Ivinhema e pediu ajuda para um paciente. Ed Carlo respondeu que, assim que o prefeito saísse da sala, "a vaga está garantida". Gabriel afirmou que, caso o município fechasse um contrato com o grupo, eles prometeriam "resolver a saúde dele".
Ao saber que o paciente era parente do prefeito e estava em situação grave, Ed Carlo respondeu que resolveria o caso e, minutos depois, afirmou ter conseguido atendimento na cidade de Nova Andradina. Na mesma conversa, reclamou que gestores nem sempre cumpriam o combinado: "O f... é que esses caras não cumprem aí a gente queima muito cartucho à toa".
Em apenas uma transação do esquema. Gabriel aparece como portador de um saque de R$ 48 mil da conta da Editora Avante. Para o Gaeco, esses elementos demonstram um vínculo direto dele com a operação comercial da empresa, muito além de uma eventual prestação de serviços jurídicos.
OUTRO LADO
O prefeito de Ivinhema, Juliano Ferro (PP), nega qualquer negociação envolvendo vagas na Saúde. "Comigo nunca teve esse tipo de conversa. Eu comprei livro deles quando acabou a pandemia, no valor de R$ 500 mil. Eles entregaram o material certinho e depois teve mais um contrato de 200 mil, que chegou a dar problema na nota, mas eles arrumaram e só depois disso pagamos. Nunca passou disso. Podem investigar que não vão encontrar nada", disse o prefeito.
Já o prefeito de Nova Alvorada do Sul, José Paulo Paleari (PP), reforçou que não fechou qualquer contrato com as empresas envolvidas. "Nunca conversei com esta pessoa. Não compramos livros desta editora".
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da Redação