O Brasil precisa de negociação, não de uma guerra de narrativas
18/07/2026 às 12:59 Opinião
A diplomacia sempre foi uma das ferramentas mais valiosas de qualquer nação.
Quando interesses econômicos entram em conflito, espera-se que os chefes de Estado busquem construir pontes, reduzir tensões e proteger os interesses de seus cidadãos.
Foi por isso que chamou atenção a declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao afirmar que pretende enfrentar o presidente norte-americano Donald Trump por meio de uma "guerra da narrativa" e da "guerra da verdade", durante a crise provocada pela imposição de tarifas de 25% sobre parte das exportações brasileiras.
A fala ocorreu justamente quando empresários, produtores rurais, industriais e trabalhadores aguardam sinais de uma solução negociada para evitar prejuízos ainda maiores à economia brasileira.
Naturalmente, todo governo tem o direito de defender sua versão dos fatos perante a comunidade internacional. A comunicação faz parte da política. A narrativa também.
Mas nenhuma narrativa substitui a diplomacia. Nenhum discurso substitui uma mesa de negociação. Nenhuma vitória retórica abre mercados fechados ou reduz tarifas comerciais.
Enquanto governos discutem versões, empresas calculam perdas. Enquanto discursos ganham manchetes, exportadores renegociam contratos, investidores adiam decisões e milhares de trabalhadores convivem com a incerteza.
É justamente nesses momentos que se espera serenidade.
Os Estados Unidos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil. Independentemente de quem ocupe a Casa Branca ou o Palácio do Planalto, trata-se de uma relação construída ao longo de décadas e que movimenta bilhões de dólares, gera empregos e influencia diretamente diversos setores da economia nacional.
Por isso, transformar um impasse comercial em uma disputa de narrativas pode até produzir efeitos políticos internos, mas dificilmente resolverá o problema que preocupa quem produz, exporta e emprega.
A diplomacia existe exatamente para evitar que divergências comerciais se transformem em confrontos permanentes.
Governos mudam. Interesses nacionais permanecem.
Mais importante do que convencer a opinião pública internacional sobre quem tem razão é encontrar caminhos que preservem empresas brasileiras, protejam empregos e restabeleçam um ambiente de confiança entre dois países que possuem relações históricas de cooperação.
Nenhum produtor rural vende mais soja porque um discurso foi aplaudido. Nenhuma indústria amplia suas exportações porque venceu uma batalha retórica. Nenhum trabalhador mantém seu emprego apenas porque seu governo acredita ter vencido a guerra da comunicação.
Os resultados concretos surgem quando prevalecem o diálogo, a inteligência diplomática e a capacidade de negociação.
O Brasil é muito maior do que qualquer governo.
Sua economia é muito mais importante do que qualquer disputa ideológica.
E seus cidadãos esperam que seus representantes priorizem soluções práticas, não confrontos verbais.
A história demonstra que grandes nações não se fortalecem pelo volume de suas declarações, mas pela capacidade de defender seus interesses com firmeza, equilíbrio e inteligência.
Narrativas passam.
Discursos são esquecidos.
Mas as consequências econômicas de decisões mal conduzidas permanecem por muitos anos.
O Brasil precisa de negociação.
E, neste momento, talvez essa seja a melhor narrativa que o mundo espera ouvir.
Jayme Rizolli
Jornalista.