
A pergunta inevitável: Qual o melhor jogador de todos os tempos?

19/07/2026 às 13:14 Futebol

Vira e mexe, vem a público o debate sobre quem foi o maior jogador de futebol de todos os tempos. Normalmente acontece nesses períodos em que um jogador se destaca por algum motivo. Messi seria o desafiante da hora. Com 39 anos, o craque argentino só estaria dependendo de ganhar hoje mais uma Copa do Mundo para roubar de Pelé o posto de maior de todos os tempos. Para alguns, inclusive, o epíteto já pertenceria a Messi, independentemente do resultado de hoje.
Como se classifica um jogador? Como afirmar que Messi é melhor do que um dia foi Pelé? Como fazer um ranking de jogadores de todos os tempos? Não se trata de problema de fácil solução.
Uma primeira tentativa seria pelas estatísticas: número de gols, de assistências, de passes certos. Há um certo desprezo pelo número de gols anotados por Pelé (mais de 1.200), justamente para tentar rebaixar o seu feito. Afinal, seriam muitos os gols feitos em partidas fáceis e amistosos, inclusive quando jogava no time do exército. Como se Messi, que tem, até o momento, 919 gols anotados, só tivesse jogado finais de Champions em sua carreira, e não jogos na liga americana. Mesmo assim, há uma diferença de mais de 300 gols. Haja amistoso inexpressivo.
Esse menosprezo com relação às assombrosas estatísticas de Pelé tem como pano de fundo a ideia de que hoje se joga um futebol muito mais competitivo, em contraste com a fase, digamos, romântica, da época de Pelé. Como disse um amigo meu, difícil Pelé, hoje, ter aquele espaço e tempo para servir Carlos Alberto primorosamente na final contra a Itália. Bem, a julgar pelo segundo gol de Haaland contra a seleção, esse espaço e tempo continuam existindo para quem é craque. Mas esse tipo de raciocínio não considera que também Pelé teria um preparo físico muito melhor e seria ainda mais rápido e forte. A diferença entre os cabeças de bagre e os craques permaneceu constante no tempo, e não faz sentido comparar atributos físicos distantes no tempo.
Temos uma segunda camada do debate, ainda no campo das estatísticas: as conquistas, sendo que a Copa do Mundo ocupa um lugar especial nessa estatística mais emocional. Pelé ganhou três Copas do Mundo, mas foi decisiva em apenas duas. Se a Argentina ganhar essa Copa, Messi terá igualado Pelé, ainda que tardiamente, com 35 e, agora, com 39 anos de idade. Pelé o fez com 17 e 29 anos, sendo que, quando ainda era um adolescente, fez um hat trick na semifinal contra a França, e não na fase de grupos contra a Argélia. Mas ok, não deixa de ser uma estatística respeitável.
Mas se fosse apenas pelas estatísticas, esse debate não ganharia os contornos emocionais que têm. Bastaria estabelecer os critérios, e um algoritmo simples estabeleceria a verdade acima de qualquer disputa. Claro, haveria um debate sobre os critérios, mas chegaríamos a diferentes rankings, satisfazendo a todos. Mas não se trata disso. A questão do maior de todos os tempos ultrapassa as meras estatísticas e vai ocupar o espaço da lenda. Não se trata de gols e conquistas, ainda que isso seja a matéria-prima da lenda, mas a impressão indelével no imaginário coletivo.
Tenho idade para lembrar desse debate na época de Maradona. O craque argentino foi considerado o novo maior de todos os tempos lá pelos idos dos anos 80. No entanto, hoje Messi é comparado com Pelé, não com Maradona. Daqui a 40 anos, quando surgir um novo super-craque, muito provavelmente será comparado com Pelé, não com Messi. É Pelé quem ocupa esse lugar no imaginário coletivo do planeta.
Eu não vi Pelé jogar. Ouvi meu pai falar e assisti aos seus inúmeros lances geniais. Os jovens de hoje não viram Maradona jogar, mas certamente ouviram seus pais contarem o quanto o meia argentino era genial. No entanto, nós que contamos aos nossos filhos sobre Maradona não ousamos colocá-lo acima de Pelé (a não ser que você seja argentino), a quem não vimos jogar. Isto é que faz uma lenda perdurar no tempo.
Portanto, não vamos perder tempo em discussões intermináveis sobre quem foi o maior de todos os tempos. Lendas fazem parte daquele recanto da mente que desafia a racionalidade. Messi, assim como Maradona, Ronaldo, Mbappe e outros craques, podem ter ultrapassado o Rei em uma estatística ou outra. Mas, no conjunto da obra, Pelé é a única lenda verdadeiramente eterna. Prova disso é justamente essa discussão, que mantém a lenda viva.
Cada um vai ter uma opinião sobre quem foi o maior jogador de todos os tempos. Sempre que me provocam, dou minha opinião: Pelé. E dou meu motivo: quando um moleque de 17 anos fizer um gol em uma final de Copa do Mundo chapelando um zagueiro dentro da área, podemos voltar a conversar sobre esse assunto.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.
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