
EXCLUSIVO: O desafio pragmático de Flávio Bolsonaro diante de um eleitorado feminino saturado de narrativas
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Por Barbara Kogos. Jornalista.
As mulheres representam a maioria do eleitorado brasileiro (52,8% dos eleitores aptos a votar) e, historicamente, registram índices de comparecimento às urnas proporcionalmente maiores que os homens. No entanto, à medida que o país avança em direção às eleições presidenciais, eu questiono uma premissa fundamental que costuma ditar as regras nos bastidores do poder: a ideia de que o voto feminino é um bloco homogêneo, guiado exclusivamente por pautas identitárias ou discursos de gênero. O voto de uma mulher possui exatamente o mesmo valor matemático, cívico e racional que o de um homem. Tratar a eleitora como um joguete de slogans abstratos é uma tentativa de subestimar sua capacidade de análise crítica. O que vejo e defendo é que o cenário atual exige das brasileiras um amadurecimento urgente no letramento político: a transição definitiva do voto por narrativa para o voto por efetividade concreta.
O contraste dos números: marketing político vs. entrega real
Nos últimos anos, consolidou-se no debate público uma narrativa insistente que tenta vincular a esquerda à defesa intransigente dos direitos das mulheres. No entanto, quando coloco esses discursos diante da realidade dos fatos e da frieza dos dados orçamentários, esse castelo de cartas começa a ruir. O atual governo sob o comando de Luiz Inácio Lula da Silva é marcado por uma vergonhosa distância entre as promessas de campanha e a execução prática.
Os relatórios de auditoria orçamentária revelam o que eu venho apontando: o plano federal de ação contra o feminicídio executou apenas cerca de 15% dos recursos previstos para o combate à violência. As consequências dessa asfixia financeira na ponta, onde operam as delegacias especializadas e as casas-abrigo, são severas e resultaram em recordes consecutivos de feminicídios, atingindo a trágica marca de 1.568 casos em 2025.
Paralelamente, vejo a esquerda direcionar seus esforços para aprovar projetos de lei baseados em conceitos altamente subjetivos e abstratos, como as discussões amplas sobre o crime de "misoginia". Minha posição é clara: tais medidas, longe de proteger as mulheres de agressões reais, abrem precedentes perigosos para interpretações jurídicas enviesadas e ideologizadas, capazes de prejudicar qualquer um nas relações cotidianas sem efetivamente desarmar o agressor ou punir o criminoso real. Cria-se o pior dos mundos: o avanço das ideologias e o retrocesso na segurança física das cidadãs.
A maior de todas as discrepâncias: o apagamento Feminino via transativismo
Existe uma contradição de fundo nessa engrenagem de narrativas que o povo brasileiro precisa enxergar, e que eu faço questão de denunciar: a profunda hipocrisia de um governo que se diz o "salvador" das mulheres, mas que simultaneamente impulsiona de forma agressiva a cartilha ideológica do transativismo, o movimento social e político que promove os direitos, a visibilidade e a inclusão das pessoas trans e travestis.
Como é possível conciliar o discurso de proteção à mulher biológica com uma agenda política que trabalha ativamente pelo seu apagamento? Assistimos a uma verdadeira invasão de espaços historicamente conquistados pelo sexo feminino: dos esportes aos banheiros, das prisões aos editais públicos, por homens biológicos e travestis que se autodeclaram mulheres.
Essa agenda não é apenas incoerente; ela é destrutiva. Ao dissolver o conceito biológico e jurídico de "mulher" em nome de uma pauta identitária extrema da esquerda, o Estado desprotege a população feminina. Se qualquer um pode ser mulher por decreto de sentimento, as políticas públicas específicas de proteção ao sexo feminino perdem totalmente o sentido e a eficácia. Essa é a prova cabal de que a esquerda usa as mulheres apenas como massa de manobra eleitoral em suas narrativas, sacrificando a segurança e a integridade delas no altar da ideologia de gênero.
O paradoxo da representatividade e o espaço conservador
Outro mito que faço questão de desmistificar ao observar o tabuleiro político atual é o suposto monopólio da esquerda sobre a representatividade feminina. Ao contrário do que prega o senso comum progressista, a esquerda brasileira padece de um visível vácuo de lideranças femininas de massa e de expressão orgânica. Quem de fato ocupou os espaços de mobilização popular e demonstrou força de liderança real nos últimos anos foram as mulheres conservadoras.
A direita consolidou grandes expoentes femininos que dialogam diretamente com a base da sociedade, tendo como maior exemplo o fenômeno político de Michelle Bolsonaro, capaz de arrastar multidões e capitanear o eleitorado evangélico e familiar. Considero fundamental comunicar essa realidade às eleitoras: o conservadorismo e o pragmatismo econômico não apenas acolhem a participação feminina, mas a transformam em liderança de fato, pautada pelo mérito e pela capacidade, e não por cotas de discurso. Para mim, o voto baseado estritamente em gênero, sem levar em consideração a competência e a viabilidade das propostas, é um erro metodológico e político que atrasa o país.
O desafio de Flávio Bolsonaro: ruídos de alianças e propostas sob suspeita
É nesse cenário de saturação de narrativas que analiso o desafio do senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL). Com o recente e complexo rompimento político e familiar com sua madrasta, Michelle Bolsonaro, que deixou a presidência do PL Mulher, a campanha do parlamentar perdeu seu principal trunfo de comunicação orgânica com as mulheres.
Para tentar suprir essa ausência, Flávio estruturou uma "Caravana Feminina" composta por uma tríade: sua esposa, Fernanda Bolsonaro, focada na humanização da imagem familiar; a economista Daniella Marques, responsável pela pauta do empreendedorismo; e a deputada Simone Marquetto.
Contudo, é justamente na composição dessa equipe que eu aponto os primeiros ruídos de incoerência ideológica. Escalada para falar com o eleitorado católico e tradicional, a deputada Simone Marquetto (PP-SP), oriunda do "Centrão", carrega um histórico de votações ambíguo que não posso ignorar. Os dados mostram que a parlamentar mantém quase 60% de alinhamento com as orientações do governo Lula em votações na Câmara, índice que ela tenta reduzir agora por clara conveniência eleitoral devido à aproximação com a direita.
Deixo aqui o meu questionamento: como uma mulher que se diz católica aceita se alinhar na maioria das vezes a projetos e agendas de um governo que é totalmente antagonista aos valores cristãos e que patrocina a desconstrução da família e do feminino? Para o eleitorado conservador atento, a presença de uma figura que versa entre os polos políticos por livre conveniência gera profunda desconfiança. Essa falta de critério na seleção de aliados cria travas de compatibilidade e, na minha avaliação, sinaliza potenciais ruídos e falta de fluidez em um futuro governo.
O segundo ponto de fricção que critico na estratégia de Flávio reside no próprio teor de suas propostas. O pacote "Brasil por Elas", que prevê o uso da assistente virtual com inteligência artificial "MarIA" e a distribuição massiva de celulares e internet gratuita para cerca de 70 milhões de mulheres de baixa renda, flerta perigosamente com o assistencialismo clássico, uma cartilha historicamente combatida pela direita.
Eu me oponho categoricamente a esse tipo de política. A distribuição de aparelhos telefônicos não resolve as dores reais da mulher brasileira. O verdadeiro calcanhar de Aquiles do eleitorado feminino está na precariedade de áreas estruturais essenciais: as falhas crônicas na educação básica, o desamparo no sistema de saúde pública (com filas para exames complexos e falta de assistência materno-infantil), a falta de políticas sérias de empregabilidade e, acima de tudo, o medo decorrente de uma segurança pública fragilizada. Lula prometeu resolver essas demandas e falhou miseravelmente. Flávio Bolsonaro não pode cometer o erro de oferecer paliativos populistas e tecnológicos para problemas que exigem reformas profundas nesses quatro pilares. O caminho para o senador conquistar de fato as eleitoras passa pela linguagem da eficiência administrativa, e não pela emulação de carisma ou receitas da esquerda.
Voto consciente e o risco do amanhã
O desfecho das próximas eleições presidenciais dependerá diretamente da capacidade das mulheres brasileiras de exercerem seu letramento político, deixando de se apegar a narrativas escusas para focar na efetividade. O voto guiado por ideologia já cobrou um preço alto demais em termos de segurança e assistência. No entanto, o que as mulheres precisam compreender com urgência é que a continuidade desse projeto de poder da esquerda pelos próximos quatro anos pode consolidar a perda total e irreversível dos espaços femininos.
Esse apagamento não acontece de forma abrupta, mas sim de maneira subliminar, disfarçado sob o manto de políticas públicas que se vendem como benfeitorias, mas que trazem a exclusão em sua essência. Se permitirmos o avanço dessa agenda pelos próximos anos, a mulher brasileira se verá cada vez mais isolada e silenciada: seja pelas amarras de leis de opinião e "misoginia" que engessam as relações e abrem margem para perseguições, seja pelo avanço do transativismo que liquida as fronteiras biológicas e invade os ambientes destinados ao sexo feminino.
Mais quatro anos sob essa cartilha significam nos distanciar em definitivo do que realmente importa para a sobrevivência e a dignidade da mulher: o direito à legítima defesa e ao porte de armas, a aplicação de leis severas e sem privilégios para criminosos reais, como estupradores e pedófilos, e o acesso a um sistema de saúde que funcione. Ficar presa a leis de aparências que deterioram o papel da mulher na sociedade é um caminho sem saída.
Diante do fracasso e do perigo real da agenda discursiva e identitária da esquerda, vejo uma avenida aberta para que a oposição demonstre que a verdadeira valorização se faz com proteção dos espaços biológicos, ordem e estímulo à autonomia pelo mérito e pelo trabalho. Cabe agora a Flávio Bolsonaro expurgar as contradições de sua base, afastar o fantasma das propostas superficiais e provar que suas soluções estruturais são tão sólidas quanto a urgência das brasileiras. Eu estarei cobrando.





