EXCLUSIVO: Jornalista aponta os desafios à liberdade de expressão e lista piores erros de Lula
03/08/2026 às 15:03 Entrevistas
Jornalista Anderson Scardoelli - Arquivo pessoal
Com uma trajetória marcada por importantes passagens em veículos de grande alcance nacional — como Comunique-se, SBT News, Canal Rural e Revista Oeste —, o jornalista Anderson Scardoelli consolidou-se como uma voz atuante no debate público brasileiro. Em entrevista exclusiva à revista A Verdade, Scardoelli reflete sobre a dinâmica do jornalismo digital, as crescentes pressões contra a liberdade de expressão no país e faz uma análise crítica sobre os rumos políticos e econômicos do Brasil, apontando caminhos para o futuro do debate informativo.
A Verdade: Você começou na comunicação há mais de uma década, com passagens por Comunique-se, SBT News e Canal Rural, antes de chegar à Revista Oeste. Qual foi o maior aprendizado dessa jornada em termos de adaptação ao jornalismo online?
Anderson Scardoelli:
O maior aprendizado é entender que a adaptação no jornalismo digital é contínua. É pesquisar como funcionam boas práticas de SEO (técnicas para ranquear bem no Google), analisar quais tipos de pautas e títulos prendem a atenção do leitor. Além disso, sempre buscar alinhar qualidade com agilidade, pois não adianta nada publicar um excelente texto, mas minutos ou horas depois de outros sites — no imediatismo da internet, isso significa divulgar algo que o público já sabe e que o Google não irá promover.
Revista A Verdade: Na sua visão, qual é o principal desafio do jornalismo independente no Brasil atual, tendo em vista o cerceamento cada vez mais intenso da liberdade de expressão e a perseguição a quem pensa diferente do sistema?
Anderson Scardoelli:
O maior desafio é conseguir justamente seguir 100% independente, sem depender dos interesses de governos, políticos e grandes corporações. E vejo que uma forma de conseguir preservar a liberdade de expressão e seguir como jornalismo independente é contar com colegas, entidades e veículos dispostos a darem publicidade a casos que ferem o livre exercício da imprensa.
Nesse sentido, dou o exemplo do jornalista maranhense Luís Pablo. Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), ele foi alvo de operação da Polícia Federal. Notebook, celulares e HD externo foram apreendidos. A alegação? Ele teria, segundo a denúncia da Polícia Federal (PF), "stalkeado" a família de Flávio Dino, outro ministro do STF. Enquanto jornalista, Luís Pablo havia simplesmente relatado o fato de que a mulher de Dino usava para fins pessoais um carro que deveria ser restrito à cúpula do Tribunal de Justiça do Maranhão.
Tenho para mim que os equipamentos de Luís Pablo só foram devolvidos (mesmo que depois de um mês) e a operação contra ele deixada de lado devido à repercussão negativa. Associações nacionais e internacionais de jornalismo, além da Revista Oeste, viram o caso como afronta à liberdade do trabalho jornalístico. Afinal, ficou claro que a intenção da apreensão dos objetos de trabalho dele era violar uma eventual fonte dele na divisão maranhense da PF.
Revista A Verdade: Como você avalia o terceiro mandato de Lula? Se puder elencar as 5 piores medidas do governo, o que você destacaria?
Anderson Scardoelli:
Levantamentos de intenção de voto repercutem a porcentagem da parcela da população brasileira que classifica o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "ruim ou péssimo". Devo dizer que integro essa parte do povo, apesar de nunca ter sido ouvido por algum instituto de pesquisa nesse sentido.
Entre ações e medidas do atual governo federal, destaco os seguintes elementos que me fazem avaliá-lo como péssimo:
- I — Aumento dos gastos públicos, inclusive com a imprensa: Segundo os dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, já foram gastos mais de R$ 2 bilhões em anúncios desde janeiro de 2023. Detalhe: os gastos com propaganda em jornais e revistas impressos cresceram, apesar de a circulação desse tipo de mídia ter despencado no decorrer dos últimos anos;
- II — Aliança com o MST: Aliança com o grupo invasor de terras que se autodenomina Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Lula teve coragem de convidar uma integrante do MST para fazer parte de seu "conselhão". Sem contar que o governo parece não se importar com invasões de propriedades rurais. Em novembro de 2023, o então ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira, classificou invasões do MST como "instrumentos legítimos de pressão";
- III — Hostilidade ao agronegócio: Enquanto tem o MST como parceiro, o governo Lula demonstra ter os produtores rurais e o agronegócio como um todo como inimigos. Para além de discursos, uma decisão técnica demonstra isso. Para o seu atual mandato, o petista resolveu, a contragosto das principais entidades do setor, desmembrar o que era o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Para atender aos interesses da militância e do MST, recriou o Ministério do Desenvolvimento Agrário, que ficou sob comando de Paulo Teixeira, do PT. A pasta ficou responsável pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), essa última que teve como presidente o também integrante do PT — e promotor do MST — Edegar Pretto;
- IV — Gastos excessivos em viagens: O combo de viagens da primeira-dama Janja da Silva. Não há explicações plausíveis para ela passar mais tempo no exterior do que o próprio presidente, sendo que, em diversas ocasiões, ela pareceu se comportar como influenciadora digital da categoria de viagens e estilo de vida, como a foto em Paris e o vídeo com dancinha ou desembarcar na Índia. Fora os gastos, isso demonstra pouco caso com o povo brasileiro; e
- V — Aparelhamento e prejuízo nas estatais: Usar estatais, que deram lucro durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, como cabide de empregos para a "companheirada". O advogado Fabiano Silva dos Santos, conhecido como "Churrasqueiro de Lula", presidiu os Correios por quase três anos. Como resultado, ele deixou rombo de R$ 7,5 bilhões.
Defendo a presença de observadores internacionais para o monitoramento do processo eleitoral brasileiro deste ano. Dos Estados Unidos e de outros países democráticos. Em novembro de 2020, o então presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Luís Roberto Barroso, acompanhou a eleição presidencial norte-americana.
Se o visto seguir negado para observadores dos EUA, haverá reclamação por parte do governo norte-americano. E com razão.
Fora isso, espero que a Justiça seja de fato imparcial. Veja: Bolsonaro está impedido de receber visitas, enquanto Lula recebeu diversas visitas, divulgou cartas e concedeu entrevistas ao cumprir pena na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba.Revista A Verdade: Diante da forte hegemonia cultural e ideológica da esquerda e episódios de hostilidade ao debate, você considera que ainda é possível haver diálogo no atual cenário? Anderson Scardoelli:
Infelizmente, o diálogo está cada vez mais difícil. A cobertura do assassinato do Charlie Kirk é um exemplo disso. Ele, que discutia ideias e visões de mundo, foi morto. No Brasil, teve gente que comemorou, inclusive na imprensa. O Eduardo Bueno aplaudiu o assassinato, deu risada e ainda falou que os filhos do Kirk ficariam melhor sem a presença do pai. O que aconteceu com ele? Ganhou espaço na mídia, tornando-se figura carimbada na Band.Revista A Verdade: Com sua experiência como jornalista e cidadão, que recado gostaria de deixar para a maioria dos brasileiros que está com medo do futuro do país? Anderson Scardoelli:
Digo para vencer o medo e, de forma respeitosa, tentar conversar com o outro lado (apesar da dificuldade de se ter diálogo) para mostrar o que acontece no Brasil e que poderá seguir a acontecer por mais quatro anos. Talvez, baste levar a turma do outro lado ao supermercado. Inflação não tem ideologia. Tem reflexo de má gestão e de um governo que erra, erra e erra nas políticas econômicas.
da Redação