
O império dos irmãos Batista, o dinheiro público e o povo sempre pagando a conta

27/07/2026 às 07:56 Opinião

Poucas trajetórias empresariais no Brasil simbolizam tão bem a proximidade entre grandes negócios privados e o poder público quanto a história dos irmãos Joesley e Wesley Batista.
O grupo que nasceu no setor frigorífico transformou-se em um conglomerado presente nos alimentos, na celulose, na mineração, nos bancos, nos meios de pagamento, nos cosméticos, no petróleo, no gás e na energia elétrica.
Agora, os irmãos Batista voltam seus olhos para um dos maiores símbolos da economia brasileira: a Vale.
Segundo informações publicadas pela imprensa, o plano inicial envolvia entregar à mineradora parte de suas minas de ferro em Corumbá, recebendo em troca ações da companhia. Depois, os empresários poderiam aportar mais recursos para tentar ocupar uma posição entre os acionistas de referência da Vale.
A operação envolvendo as minas não avançou. A própria Vale informou que avaliou e descartou o investimento. Mas a ambição revelada pelo episódio permanece impressionante.
Os Batista, que já controlam um dos maiores grupos de alimentos do planeta, não escondem o desejo de ampliar sua presença justamente nos setores mais estratégicos da economia nacional.
Não estamos falando apenas de carne bovina ou de frigoríficos. Estamos falando de mineração, energia, gás, petróleo, sistema financeiro e infraestrutura.
A J&F controla ou mantém participação em empresas como JBS, Eldorado Brasil, Âmbar Energia, LHG Mining, Fluxus, Flora, PicPay e Banco Original. Nos Estados Unidos, seu alcance passa por operações como JBS USA, Pilgrim’s Pride e Swift Prepared Foods.
Na Venezuela, ainda não há ativo confirmado pertencente ao grupo. Entretanto, a Fluxus já avalia oportunidades no setor de petróleo e gás, enquanto Joesley Batista circula com desenvoltura entre autoridades de Caracas e Washington.
Poucos empresários brasileiros possuem hoje tamanho acesso político e diplomático.
E não fosse o sucesso político por certo não chegariam até onde chegaram. Até hoje não sabemos que fim levaram os BILIONÁRIOS investimentos do BNDES. Possivelmente o povo está pagando até hoje.
Mas esse império não pode ser contado sem mencionar o papel do Estado brasileiro em sua expansão.
Durante os governos Lula e Dilma, a JBS tornou-se uma das principais vitrines da política dos chamados “campeões nacionais”.
O BNDES e sua área de participações investiram bilhões de reais na companhia, oferecendo o capital necessário para uma agressiva sequência de aquisições dentro e fora do Brasil.
A justificativa era criar uma multinacional brasileira capaz de competir no mercado internacional.
E, de fato, nasceu uma gigante. A pergunta que nunca foi suficientemente respondida é outra:
Quem assumiu os riscos enquanto o patrimônio privado crescia? Quando tudo funciona, os lucros pertencem aos acionistas. Quando a operação ameaça produzir prejuízos sistêmicos, a conta frequentemente encontra um caminho até o bolso do contribuinte ou do consumidor.
É justamente isso que volta a preocupar no setor elétrico.
A Âmbar Energia, pertencente ao grupo J&F, avançou para assumir a Amazonas Energia, distribuidora historicamente deficitária, endividada e dependente de condições regulatórias especiais.
O negócio foi acompanhado de flexibilizações, subsídios e mecanismos destinados a garantir a continuidade do fornecimento de energia.
O problema é que esses mecanismos não são financiados por uma árvore de dinheiro plantada em Brasília. São pagos por encargos cobrados nas contas de luz e distribuídos entre os consumidores brasileiros.
Na prática, uma empresa privada pode assumir um ativo problemático com parte relevante dos riscos amortecida pelo sistema elétrico nacional. O empresário fica com a possibilidade de recuperação e valorização do negócio.
O brasileiro fica exposto à conta.
Não se trata de condenar o lucro ou a expansão empresarial. Empresas existem para crescer, investir e gerar resultados.
O que precisa ser questionado é a repetição de um modelo, sempre com o patrocínio estatal, no qual determinados grupos parecem encontrar uma porta aberta no Estado.
No passado, o dinheiro público ajudou a financiar aquisições e a internacionalização da JBS.
Agora, decisões governamentais e regulatórias tornam possível a entrada do mesmo conglomerado em setores deficitários, estratégicos e fortemente dependentes de garantias públicas.
E, no horizonte, surge até mesmo a Vale. Uma das maiores mineradoras do mundo.
Uma empresa que já foi estatal e que continua exercendo enorme influência sobre a economia, as exportações e os recursos naturais brasileiros.
A simples possibilidade de os irmãos Batista se tornarem acionistas relevantes da Vale mostra até onde chegou o projeto de poder empresarial iniciado décadas atrás.
E também impulsionado de forma decisiva por financiamentos, aportes e decisões produzidas dentro do Estado brasileiro.
Por isso, a discussão não deve ser reduzida à capacidade empresarial dos irmãos Batista.
O verdadeiro debate é sobre os limites da associação entre poder econômico e poder político.
Quando um conglomerado privado cresce apoiado por dinheiro público passa a circular com facilidade pelos gabinetes de Brasília, Washington e Caracas, a sociedade tem o direito de perguntar:
Onde termina o empreendedorismo e onde começa o capitalismo de relações.
O Brasil já assistiu muitas vezes à privatização dos lucros e à socialização dos prejuízos.
Os nomes mudam. As empresas mudam. As justificativas também mudam.
Mas o roteiro permanece assustadoramente parecido.
O empresário amplia seu império. O governo celebra a formação de mais um gigante nacional.
E, quando a conta aparece, ela não chega à sede da holding. Chega à casa do trabalhador, discretamente incluída na tarifa de energia, nos impostos ou na dívida pública.
Os irmãos Batista podem até continuar sonhando com a Vale.
O contribuinte brasileiro, porém, tem motivos de sobra para temer que, mais uma vez, seja chamado a pagar pela realização desse sonho.
Jayme Rizolli
Jornalista.









