

Celebrado neste 30 de julho, o Dia Internacional da Amizade nos convida a refletir sobre a força desse sentimento. A data nos remete à iniciativa do médico paraguaio Ramón Artemio Bracho, que, em 1958, fundou a Cruzada Mundial da Amizade com o propósito de promover a cultura de paz entre as nações. Décadas depois, em 2011, a ONU oficializou a celebração. Afinal, para que serve a amizade? Historicamente, ela sempre esteve ligada à harmonia entre os povos — visto que o oposto da amizade é a inimizade que alimenta conflitos e guerras. No nível individual, ela cumpre um papel fundamental no fortalecimento da autoestima e do bem-estar social.
Contudo, a despeito dessa importância fundamental, vivemos em uma época em que os relacionamentos parecem seguir a lógica do consumo: aproximam-se enquanto oferecem prazer e são descartados diante da primeira frustração. A superficialidade, o cancelamento e a pressa também alcançaram as conexões humanas.
Diante desse cenário, observo um fenômeno que gosto de chamar de “flerte de amizade”. São aquelas relações agradáveis que surgem em ambientes como salões de beleza, academias ou cafeterias. Não exigem continuidade nem compromisso; alimentam-se da partilha esporádica de um momento em espaço público. E isso não é pouco. Estudos em neurociência sugerem que encontros sociais acolhedores favorecem a liberação de ocitocina, substância associada à confiança e ao fortalecimento das ligações afetivas. Eles também ajudam a reduzir a resposta do organismo ao estresse e ampliam o sentimento de pertencimento.
Ainda assim, por mais benéficas que sejam essas interações leves, estudos sobre o chamado “Número de Dunbar” sugerem que nosso cérebro possui limites cognitivos para manter relações estáveis e profundas. O coração, portanto, precisa ser seletivo: escolhe, por afinidade e empatia, aquelas conexões que realmente merecem ser cultivadas.
Fica assim mais evidente a diferença entre esses encontros casuais e os vínculos verdadeiramente profundos. Enquanto os primeiros são ocasionais, os segundos exigem dedicação contínua: são construídos ao longo dos anos, com partilha real da vida. São eles que conhecem nossa história, testemunham nossas transformações e permanecem quando a juventude já ficou para trás. Pesquisas mostram que vínculos de confiança modulam a resposta ao estresse, fortalecem a resiliência e estão associados à preservação da saúde mental, ao envelhecimento saudável e até a uma maior longevidade. Não é por acaso que esses laços costumam representar um porto seguro: compartilham não apenas nossas alegrias e dores, mas também a memória da nossa trajetória.
A mesma tecnologia que promete unir a humanidade, no entanto, muitas vezes compromete esses vínculos. As redes sociais aproximam quem está longe e distanciam quem está perto. Temos centenas de contatos, mas cada vez menos encontros reais. A neurociência mostra que a interação humana envolve um conjunto complexo de sinais — expressões faciais, contato visual, tom de voz, gestos e postura — que participam da percepção das emoções e da construção da empatia. Nos encontros presenciais, esses sinais estão disponíveis simultaneamente, em uma riqueza de informações que a comunicação por telas reproduz apenas em parte.
Cuidar das amizades presenciais tornou-se, assim, uma escolha consciente e valiosa. Em meio ao ruído digital, investimos mais no ter — seguidores, curtidas, conexões — do que no ser: presença, companhia e memórias construídas ao lado de quem caminha conosco.
Neste Dia Internacional da Amizade, fica o convite à reflexão: como você tem cultivado suas conexões?
Vivemos tempos marcados por guerras, distanciamentos e escassez de relações presenciais. Por isso, precisamos reavaliar nossas prioridades e investir na convivência, no conhecimento de si e na abertura para o outro — afinal, só se ama verdadeiramente aquilo que se conhece. As amizades passageiras cumprem seu bonito papel de oferecer acolhimento em momentos pontuais. Mas são os laços profundos que dão estrutura à vida: construídos com afeto, tempo e presença, resistem aos conflitos, atravessam as intempéries e fazem com que a vida seja não apenas compartilhada, mas plenamente vivida.
Bernadete Freire Campos
Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.












