Qual é, afinal, o papel das ONGs na política ambiental brasileira?

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Nos últimos anos, falar sobre meio ambiente no Brasil deixou de ser apenas um debate sobre árvores, rios ou preservação da fauna.

A discussão passou a envolver bilhões de reais, interesses internacionais, soberania nacional, produção agrícola, comunidades tradicionais, povos indígenas, desenvolvimento econômico e, cada vez mais, a atuação de organizações não governamentais.

As chamadas ONGs.

Mas afinal... Qual é realmente o papel dessas entidades?

Seriam elas apenas defensoras da natureza ou já exercem influência direta sobre decisões estratégicas do Estado brasileiro?

Essa pergunta deixou de ser mera teoria.

Ela passou a fazer parte das discussões no Congresso Nacional, em comissões parlamentares, em audiências públicas e até mesmo dentro dos próprios órgãos ambientais.

É importante esclarecer um ponto desde o início.

Nem toda ONG é igual.

Existem pequenas associações comunitárias que realizam trabalhos extraordinários na recuperação de nascentes, educação ambiental, assistência a comunidades ribeirinhas e preservação da biodiversidade.

Essas organizações merecem reconhecimento.

O problema começa quando algumas instituições deixam de atuar apenas como executoras de projetos e passam a ocupar posições de influência na formulação das políticas públicas.

Hoje, representantes de entidades ambientalistas participam oficialmente de conselhos governamentais que discutem normas, regulamentos e diretrizes ambientais.

Também integram espaços de governança ligados ao Fundo Amazônia, um dos maiores mecanismos de financiamento ambiental do país, abastecido principalmente por recursos internacionais.

Nada disso, por si só, representa irregularidade. A participação da sociedade civil é saudável em qualquer democracia.

Mas quanto maior a influência exercida sobre decisões públicas, maior deve ser também a transparência.

E é exatamente nesse ponto que surgem as perguntas.

Quem escolhe essas entidades? Quem financia suas atividades? Quais interesses representam? Como são evitados conflitos entre quem ajuda a formular políticas e quem posteriormente participa de projetos financiados por essas mesmas políticas?

São perguntas legítimas.

E perguntas legítimas não podem ser confundidas com ataques ao meio ambiente.

A própria CPI das ONGs, instalada pelo Senado Federal, revelou que o assunto está longe de ser simples.

Ao longo de dezenas de reuniões, diligências e depoimentos, parlamentares analisaram denúncias envolvendo financiamento estrangeiro, atuação em áreas sensíveis da Amazônia, conflitos fundiários, prestação de contas e impactos sobre comunidades locais.

As conclusões dividiram opiniões.

Enquanto parte dos senadores defendeu maior controle, transparência e fiscalização, outra parte afirmou que não se poderia generalizar suspeitas sobre todo o terceiro setor.

Esse contraste demonstra que o verdadeiro debate não está entre proteger ou destruir as ONGs.

O debate é outro.

Quem fiscaliza e quem exerce influência sobre políticas públicas?

Outro aspecto pouco discutido é o financiamento internacional.

Diversos projetos ambientais brasileiros recebem recursos provenientes do exterior. Isso não significa, automaticamente, perda de soberania.

Entretanto, quando bilhões de reais atravessam fronteiras para financiar iniciativas dentro de um território estratégico como a Amazônia, a sociedade brasileira possui o direito de conhecer, com absoluta clareza, quem financia, quanto financia, para qual finalidade e quais resultados efetivamente foram alcançados.

Transparência nunca foi sinônimo de perseguição.

Pelo contrário.

Quem trabalha corretamente costuma ser o maior interessado em prestar contas de forma clara e também merece reflexão a voz daqueles que vivem diariamente na floresta.

Produtores rurais. Ribeirinhos. Extrativistas. Pequenos agricultores. Comunidades indígenas.

Famílias que há décadas constroem suas vidas na região.

Nenhuma política ambiental será verdadeiramente sustentável se essas pessoas forem apenas espectadoras das decisões tomadas em gabinetes distantes.

A floresta precisa ser preservada, mas quem vive nela também precisa ser ouvido.

No fim das contas, talvez a pergunta mais importante nem seja se as ONGs fazem um bom ou um mau trabalho.

Porque colaborar com o Estado é saudável. Fiscalizar o Estado é legítimo.

Mas substituir o Estado nunca deveria ser o papel de qualquer organização privada.

Talvez esteja exatamente aí a resposta que tantos brasileiros procuram.

A floresta precisa de proteção. O meio ambiente precisa de responsabilidade.

Mas a soberania nacional também precisa permanecer sob os olhos daqueles que receberam, pelo voto popular, a missão constitucional de defendê-la.

E essa talvez seja a pergunta que permanecerá ecoando por muitos anos:

“Quem vigia aqueles que, em nome da proteção da floresta, passarão também a influenciar o destino da própria floresta e das pessoas que nela vivem?”
Foto de Jayme Rizolli

Jayme Rizolli

Jornalista.

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