Auxílio-moradia, a crucificação de Sérgio Moro, porque parece que só ele recebe...

Queria saber se quem se mostra indignado com o auxílio-moradia dos juízes também se revolta com o décimo-terceiro salário que recebe.

O ano, quer se olhe a partir da direita retrógrada conservadora opressora ou da esquerda progressista democrática lacradora, tem só doze meses.

Auxílio-moradia, auxílio-creche, décimo-terceiro, salário-família, são excrescências, puxadinhos para justificar aumentos sem ter que justificá-los.

Se duas pessoas fazem o mesmo trabalho, devem ter a mesma remuneração - independentemente de serem homem ou mulher, branco ou negro, com casa própria ou pagando aluguel, com quatro filhos para criar ou em pleno gozo das faculdades mentais.

Mas vivemos no mundo do auxílio-transporte, do auxílio-educação, do auxílio-alimentação, da assistência pré-escolar, do adicional de férias, do adicional natalino, da verba de representação. Das horas extras (com os mesmos sessenta minutos) pagas em dobro.

Um mundo de pequenos (ou não tão pequenos) privilégios. Das vantagens, dos quinquênios e anuênios, das acumulações de cargos, do auxílio-paletó.

Por que não um salário justo, assumido e transparente? 
Porque isso iria desnudar as desigualdades.

Afinal, quanto ganham um juiz, um delegado, um deputado, um assessor, um prefeito, um ministro? Ganham muito e ganham pouco, dependendo de como seja feita essa conta.

É justo que um juiz receba auxílio-moradia tendo casa própria? Ou basta que desista de investir em um imóvel e pague aluguel, para que a justiça se restabeleça?

Apesar do oportunismo da "indignação" (que não existiria se "alguém" tivesse sido absolvido...), que sirva pelo menos para começar a discussão sobre esse jeitinho tão nosso de escamotear informações, manipular dados, esconder coelhos nas cartolas, cartas nas mangas - e criticar quem vende pela metade do dobro enquanto achamos perfeitamente normal comprar pelo dobro da metade.

Eduardo Affonso

É arquiteto no Rio de Janeiro.

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