Por trás das aparências: o que acontece no Brasil e no mundo?

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O nome dele é Kiko.  Barbeiro dominicano, de aparência feroz.  Usa jaqueta de couro, correntes penduradas na calça e o típico boné que os dominicanos usam em Nova York, com letras prateadas.  Se eu visse o Kiko à noite, na rua, eu atravessaria para o outro lado.

Há mais de um ano atrás, fui raspar todo o cabelo que caía por causa da quimioterapia.  Kiko me explicou que sua esposa tinha tido câncer.  Agora ela estava bem.  Quando ele terminou, perguntei quanto era o corte de cabelo, mas ele não quis cobrar.  Ficou emocionado, lembrou da esposa.  Eu fiquei careca de graça.

Ontem, cabeludo ma non troppo, fiz questão de voltar ao salão onde o Kiko trabalha.  Por trás da aparência agressiva, Kiko é um anjo.  Ele ligou para a esposa no celular, só para mostrar a ela que estava trabalhando.  Ele disse que liga todos os dias.  Sua esposa está na República Dominicana tentando imigrar para NY.  Me lembrou a história dos meus avós.

Enfim, entendo as dificuldades de quem trabalha duro para manter a família e melhorar de vida.  Sou contra imigrantes que não querem trabalhar, apenas receber benefícios sociais do governo ou então aqueles que impõem seus valores a todos que pensam de forma diferente.

Os EUA e o Brasil não foram construídos com medo ou ódio entre as pessoas.  Cresci em um Brasil de convivência harmoniosa entre afrodescendentes, indígenas, portugueses, árabes, judeus, italianos, alemães, ucranianos, japoneses e outros.      

Um país se constrói com coragem, liberdade e a crença de que pessoas com opiniões diferentes ainda podem seguir juntas para fazer um país.

Neste ano de eleição cabe perguntar quem está realmente contribuindo para unir o país e o seu estado:  cúmplices de bandidos que dividem a sociedade ou aqueles que fazem propostas para integrar pessoas e incentivar o trabalho e a produção?

Passei 45 anos estudando e trabalhando com desenvolvimento.  Cheguei a uma conclusão muito simples: os países se desenvolvem quando suas lideranças conseguem construir uma estratégia onde todos contribuem para algo que é maior do que cada uma delas.  O todo acaba sendo maior do que a soma de suas partes.  Mais importante do que a cor da pele, a raça, a religião, a ideologia, a orientação sexual ou o status financeiro acaba sendo a vontade de trabalhar, de progredir, de educar os filhos, de respeitar quem respeita Deus e garantir que o esforço de muitos não é desperdiçado pela ambição pessoal de poucos. 

Não há mistério: foi essa força coletiva invisível que impulsionou as gerações de nossos pais e avós.  Os verdadeiros estadistas se destacam por sua habilidade de construir na prática uma visão comum que beneficie a todos.  Não por bravatas machistas ou frases feitas por marqueteiros.  

Essa simples bússola moral orientou o desenvolvimento do planeta depois de tantos conflitos, culminando em duas guerras mundiais, no Holocausto, no uso da primeira bomba atômica, e na criação de uma organização global para a paz, a ONU, cuja missão está falhando.

A Segunda Guerra Mundial resultou na vitória da democracia, certo?  Errado.  Cerca de 105 países conquistaram soberania ou se tornaram independentes após 1945, impulsionados pelo processo de descolonização na África e na Ásia e pelo fim da União Soviética.  Ou seja, mais da metade dos atuais estados soberanos do mundo surgiram após o fim da Segunda Guerra Mundial.  Porém, mais de 80 países recém-independentes tornaram-se regimes autoritários ou ditatoriais após 1945. 

Eleição não é sinônimo de democracia.  Segundo o Instituto V-Dem, da Suécia, o Brasil é uma democracia falha.  Existem eleições, mas vários elementos que configuram um sistema democrático, como transparência e liberdade de imprensa, estão comprometidos.  Segundo o Projeto Justiça Global (Global Justice Project), o Brasil ocupa a 78ª posição entre 143 países devido a falhas da nossa justiça criminal.  Segundo o Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, os indicadores do Brasil refletem estagnação persistente e mínimas históricas.  A organização criticou explicitamente as decisões do Supremo Tribunal Federal do Brasil que invalidam importantes provas de corrupção e suspendem multas por leniência concedidas a empresas em investigações históricas como a Lava Jato.     

Globalmente, segundo o Freedom House, a liberdade declinou pelo vigésimo ano consecutivo em 2025.  Um total de 54 países sofreram deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis durante o ano.  Segundo o Instituto V-Dem, apenas 7% da população mundial, cerca de 600 milhões de pessoas, vive em democracias plenas.

Quanto tempo até estourar outra guerra mundial?  Se você não sabe, a Terceira Guerra Mundial já começou.  É uma guerra não declarada, caracterizada por “zonas cinza”:  conflito entre democracias liberais (EUA, Europa, Israel, Japão, etc.) e países autocráticos (China, Rússia, Coreia do Norte, etc.), infiltração muçulmana extremista, infiltração comunista/socialista em instituições democráticas no Ocidente, infiltração woke na mídia e em instituições públicas, manipulação da mídia e da internet, imigrações ilegais em massa, competição feroz por mercados, espionagem e sabotagens, e terrorismo por procuração (Irã, Hamas, Hezbollah, Houthis, etc.).  Heuristicamente, dizemos esquerda X direita.  Na prática, é tudo mais complexo e sutil.   

O atual governo, infelizmente, parece ter escolhido o lado dos países autocráticos.  O seu voto nas eleições de 2026 vão confirmar isso ou mudar o rumo.   

Eu pensava sobre tudo isso quando Kiko terminou meu corte de cabelo.  Voltei à realidade: um homem trabalhador lutando para unir sua família de forma honesta. 

Ele me lembrou o poema “Os Justos”, de Jorge Luís Borges: “Um homem que cultiva o seu jardim.  O que agradece que na terra haja música.  O ceramista que planeja uma cor e uma forma.  O que acarinha um animal adormecido.  O que justifica um mal que lhe fizeram.  O que prefere que os outros tenham razão. Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo”.  

Jonas Rabinovitch. Arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior em Inovação, Gestão Pública e Desenvolvimento Urbano da ONU em Nova York.

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