
Por trás das aparências: o que acontece no Brasil e no mundo?

10/08/2026 às 13:31 Opinião

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O nome dele é Kiko. Barbeiro dominicano, de aparência feroz. Usa jaqueta de couro, correntes penduradas na calça e o típico boné que os dominicanos usam em Nova York, com letras prateadas. Se eu visse o Kiko à noite, na rua, eu atravessaria para o outro lado.
Há mais de um ano atrás, fui raspar todo o cabelo que caía por causa da quimioterapia. Kiko me explicou que sua esposa tinha tido câncer. Agora ela estava bem. Quando ele terminou, perguntei quanto era o corte de cabelo, mas ele não quis cobrar. Ficou emocionado, lembrou da esposa. Eu fiquei careca de graça.
Ontem, cabeludo ma non troppo, fiz questão de voltar ao salão onde o Kiko trabalha. Por trás da aparência agressiva, Kiko é um anjo. Ele ligou para a esposa no celular, só para mostrar a ela que estava trabalhando. Ele disse que liga todos os dias. Sua esposa está na República Dominicana tentando imigrar para NY. Me lembrou a história dos meus avós.
Enfim, entendo as dificuldades de quem trabalha duro para manter a família e melhorar de vida. Sou contra imigrantes que não querem trabalhar, apenas receber benefícios sociais do governo ou então aqueles que impõem seus valores a todos que pensam de forma diferente.
Os EUA e o Brasil não foram construídos com medo ou ódio entre as pessoas. Cresci em um Brasil de convivência harmoniosa entre afrodescendentes, indígenas, portugueses, árabes, judeus, italianos, alemães, ucranianos, japoneses e outros.
Um país se constrói com coragem, liberdade e a crença de que pessoas com opiniões diferentes ainda podem seguir juntas para fazer um país.
Neste ano de eleição cabe perguntar quem está realmente contribuindo para unir o país e o seu estado: cúmplices de bandidos que dividem a sociedade ou aqueles que fazem propostas para integrar pessoas e incentivar o trabalho e a produção?
Passei 45 anos estudando e trabalhando com desenvolvimento. Cheguei a uma conclusão muito simples: os países se desenvolvem quando suas lideranças conseguem construir uma estratégia onde todos contribuem para algo que é maior do que cada uma delas. O todo acaba sendo maior do que a soma de suas partes. Mais importante do que a cor da pele, a raça, a religião, a ideologia, a orientação sexual ou o status financeiro acaba sendo a vontade de trabalhar, de progredir, de educar os filhos, de respeitar quem respeita Deus e garantir que o esforço de muitos não é desperdiçado pela ambição pessoal de poucos.
Não há mistério: foi essa força coletiva invisível que impulsionou as gerações de nossos pais e avós. Os verdadeiros estadistas se destacam por sua habilidade de construir na prática uma visão comum que beneficie a todos. Não por bravatas machistas ou frases feitas por marqueteiros.
Essa simples bússola moral orientou o desenvolvimento do planeta depois de tantos conflitos, culminando em duas guerras mundiais, no Holocausto, no uso da primeira bomba atômica, e na criação de uma organização global para a paz, a ONU, cuja missão está falhando.
A Segunda Guerra Mundial resultou na vitória da democracia, certo? Errado. Cerca de 105 países conquistaram soberania ou se tornaram independentes após 1945, impulsionados pelo processo de descolonização na África e na Ásia e pelo fim da União Soviética. Ou seja, mais da metade dos atuais estados soberanos do mundo surgiram após o fim da Segunda Guerra Mundial. Porém, mais de 80 países recém-independentes tornaram-se regimes autoritários ou ditatoriais após 1945.
Eleição não é sinônimo de democracia. Segundo o Instituto V-Dem, da Suécia, o Brasil é uma democracia falha. Existem eleições, mas vários elementos que configuram um sistema democrático, como transparência e liberdade de imprensa, estão comprometidos. Segundo o Projeto Justiça Global (Global Justice Project), o Brasil ocupa a 78ª posição entre 143 países devido a falhas da nossa justiça criminal. Segundo o Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, os indicadores do Brasil refletem estagnação persistente e mínimas históricas. A organização criticou explicitamente as decisões do Supremo Tribunal Federal do Brasil que invalidam importantes provas de corrupção e suspendem multas por leniência concedidas a empresas em investigações históricas como a Lava Jato.
Globalmente, segundo o Freedom House, a liberdade declinou pelo vigésimo ano consecutivo em 2025. Um total de 54 países sofreram deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis durante o ano. Segundo o Instituto V-Dem, apenas 7% da população mundial, cerca de 600 milhões de pessoas, vive em democracias plenas.
Quanto tempo até estourar outra guerra mundial? Se você não sabe, a Terceira Guerra Mundial já começou. É uma guerra não declarada, caracterizada por “zonas cinza”: conflito entre democracias liberais (EUA, Europa, Israel, Japão, etc.) e países autocráticos (China, Rússia, Coreia do Norte, etc.), infiltração muçulmana extremista, infiltração comunista/socialista em instituições democráticas no Ocidente, infiltração woke na mídia e em instituições públicas, manipulação da mídia e da internet, imigrações ilegais em massa, competição feroz por mercados, espionagem e sabotagens, e terrorismo por procuração (Irã, Hamas, Hezbollah, Houthis, etc.). Heuristicamente, dizemos esquerda X direita. Na prática, é tudo mais complexo e sutil.
O atual governo, infelizmente, parece ter escolhido o lado dos países autocráticos. O seu voto nas eleições de 2026 vão confirmar isso ou mudar o rumo.
Eu pensava sobre tudo isso quando Kiko terminou meu corte de cabelo. Voltei à realidade: um homem trabalhador lutando para unir sua família de forma honesta.
Ele me lembrou o poema “Os Justos”, de Jorge Luís Borges: “Um homem que cultiva o seu jardim. O que agradece que na terra haja música. O ceramista que planeja uma cor e uma forma. O que acarinha um animal adormecido. O que justifica um mal que lhe fizeram. O que prefere que os outros tenham razão. Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo”.
Jonas Rabinovitch. Arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como Conselheiro Sênior em Inovação, Gestão Pública e Desenvolvimento Urbano da ONU em Nova York.
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